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Matéria 8323, publicada em 11/05/2009.


:Carolinne Sagaz

A peça mostra a discussão de um casal em meio à sociedade do espetáculo

Realidade e ficção se misturam em Escaparate

Bruno Isidoro



A discussão de um casal em meio à sociedade do espetáculo toma a rua, as vitrines, as calçadas e as lojas: todo o ambiente urbano é utilizado para encenar a peça. Os atores estão infiltrados na plateia e a dúvida entre o que é real e o que é teatro confunde o público. No entardecer de 7 de maio, em frente ao edifício Manchester, a cidade continua sua rotina até que um grupo de curiosos parasse para ver a imagem projetada na parede do Shopping Direto. Estava começando a peça Escaparate, uma parceria da Associação Cultural Alquimídia com o Grupo Erro.

Nada do local foi modificado para o espetáculo. Na rua do Príncipe, os carros trafegam normalmente. Nas calçadas, as pessoas que não querem acompanhar a peça movimentam-se livremente. No início, enquanto o vídeo de uma moça aparece projetado na parede, um Peugeot vermelho passa pela rua. Dentro, uma mulher no banco de carona grita com o motorista. Aparentemente, é um casal. As atenções que estavam fixas na projeção se voltam para o carro: o automóvel para, a mulher sai rapidamente e some. O policial, sem entender se aquilo era realidade ou ficção, conversa com o motorista que levanta a cabeça e segue o caminho.

O vídeo continuava rodando, como se nada tivesse interferido na cena. Um homem de jaqueta azul, bigode e celular na mão inicia um diálogo com a imagem da mulher na parede. O público se espanta, pois até aquele momento o senhor não fazia parte do espetáculo. A garota do vídeo responde e a conversa se transforma em discussão. A mulher, que até então só era vista na imagem da parede falando com as pessoas, reaparece acima do público, na janela do segundo andar de um prédio. Ela volta para a frente do computador, onde continua conversando com a plateia pela webcam. Está tentando criar um roteiro, mas não sai do começo da história: “A velha fala para o velho: 'Você acha que é possível?'” e esse é o ponto principal da briga do casal.

Ela desce as escadas e aparece na calçada. A discussão passa a acontecer ali, entre as pessoas. Os atores entram nas lojas, aparecem nas vitrines, usam manequins e boneca inflável como se fossem pessoas. O homem ainda interage com uma garota que, segundo o ator Luiz Henrique Martins, o Cudo, não faz parte da peça. Ele tenta beijá-la, fala que é sua “nova namorada”, tira fotos. A moça, tímida, fica sem jeito ao ser o foco das atenções.

Um celular toca e alguém comenta: “Desliga-se o celular nas peças”. A dona do telefone se desculpa. A cena do casal continua, enquanto a garota procura o celular dentro da bolsa. Quando atende, começa a gritar com alguém do outro lado da linha. As pessoas, perdidas, observam a nova cena que acaba de ser criada. Nada para. O espetáculo continua. A moça desliga o celular, senta e chora. Alguns a observam enquanto outros acompanham o diálogo do casal que agora se movimenta na multidão, muitas vezes esbarrando nos passantes.

Nessa confusão entre a realidade e a ficção, o público busca entender a história e a proposta da peça. Cada barulho além do normal – como um chute em uma latinha de refrigerante que estava no chão – atrai vários olhares para o local de onde vem o som. As pessoas não sabem de onde pode surgir uma nova cena, quem é ator e quem é espectador.

O casal protagonista continua sua briga. A mulher, então, sobe as escadas, retorna para a frente do computador e termina seu roteiro. Na rua, um carro de som aparece com uma mensagem de amor. A loira que pouco antes discutia no celular ressurge no meio do público e volta a ser o ponto de atenção. Um homem lhe dá um beijo e ambos seguem, como se aquilo não fizesse parte da peça. O automóvel se retira do local logo depois. As pessoas se olham por um bom tempo, até perceberem que aquele era o final do espetáculo. Batem palmas e voltam para velha rotina do centro da cidade.

Escaparate mostra um modo de interação da vida atual, onde a tecnologia participa ativamente dos relacionamentos e se torna o ponto de encontro do individual com o coletivo, enfatizando acontecimentos da esfera privada que se tornam públicos na sociedade do espetáculo.

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