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Matéria 8180, publicada em 08/04/2009.


:Divulgação

Escritor teme a má adaptação de seu livro para o cinema

Pedro Bandeira está desiludido com a leitura entre crianças

Tuane Roldão*


Ainda que descrente quanto à falta de hábito (e gosto) dos brasileiros pela leitura, Pedro Bandeira arrasta multidões por onde passa. O escritor infanto-juvenil pintou esse cenário na manhã de sexta-feira, 3 de abril, quando participou de um encontro com estudantes joinvilenses na 6ª edição da Feira do Livro. As crianças e adolescentes cercaram o ídolo que encanta gerações desde 1983, quando passou a se dedicar inteiramente à literatura. Em entrevista exclusiva à Revi, Pedro falou sobre suas obras e traçou um panorama sobre a situação atual dos leitores no Brasil.

Você começou a escrever livros de ficção quase acidentalmente, para acrescentar na renda familiar, deixando de trabalhar na área de Ciências Sociais na qual é formado...
Mais ou menos. Na verdade, eu só fiz Ciências Sociais para ter uma cultura ampla que a história, a sociologia dá. A minha profissão sempre foi o jornalismo. Eu sempre vivi de escrever. Publiquei um livro, mas pretendia continuar atuando como jornalista. O sucesso desses livros fez com que eu largasse o jornalismo e passasse a ser somente escritor.

Você se sente totalmente realizado com essa escolha ou tem alguma outra paixão que gostaria de ter seguido, de ter se dedicado mais?
Ah, essa foi uma coisa maravilhosa, foi um achado na minha vida.

De onde surgiu a vontade de se especializar para o público infanto-juvenil? Já pensou em escrever ficção para adultos?
Não. Bom, eu comecei a escrever para editoras de publicação escolar que atingem crianças da primeira à oitava série. Então, fiz livros dirigidos para esse público e eu também fiz isso profissionalmente, uma vez que aí você tem uma venda garantida. Quando você faz um livro adulto você não tem nenhuma venda garantida. O livro vai pra livraria e, se for sucesso, é. E poucos são sucesso. Esses livros, não: são livros dirigidos ao público estudantil. Aí eu comecei a estudar essas pessoas, estudar psicologia e me especializar neles, e neles ficarei pra sempre.

Que lições os leitores mais velhos podem aproveitar de seus livros?
Não sei. Não se tira lições de arte porque a arte não ensina nada. Arte toca os sentimentos e provoca pensamentos, reflexões em você. Quando alguém pinta um quadro bonito, ele não pensa em ensinar nada. Quando alguém compõe uma sinfonia ou um samba, não quer ensinar nada, quer tocar o teu emocional. Quando escrevo um livro, eu quero tocar o teu emocional, fazer você pensar em você mesmo, na relação de você com as outras pessoas, teus próprios sentimentos, o teu amor, a sua raiva, os seus medos, seus incômodos e as suas esperanças. É isso que um artista procura. A gente não quer ensinar nada. Um artista não é um professor.

É verdade que dentre cartas e e-mails de seus leitores você já recebeu correspondência de um presidiário? Como se dá essa relação com o seu público?
Dá um trabalho danado porque eles são muitos e eu sou um só. A gente recebe muito carinho, muitos e-mails, eles são muito carinhosos. Essa do presidiário foi terrível, né? Eu não esperava. Ele mandou a carta para a editora de uma prisão de segurança máxima. Quando você está numa prisão de segurança máxima não é um crime pequenininho, é um crime grande que ele fez, né? Aí eu fiquei até com medo. Eu até não mandei no remetente o meu endereço. Eu mandei o endereço da editora. Mandei livros pra prisão, uma coleção inteira dos meus livros. Espero que ele saia de lá, que ele tenha saído já, tenha tomado uma outra vida. É muito triste, né?

Já surgiu alguma ideia para um livro a partir de correspondências dos leitores ou então inspirada em algum autor que você goste bastante?
Nos livros as histórias são minhas, todas. Eu adotei uma sugestão de uma leitora que eu incorporei, mas a ideia do livro é inteiramente minha. Você não escreve com a cabeça de outras pessoas, você escreve com a sua cabeça. Agora estou sozinha é baseado em Hamlet e A hora da verdade é uma mistura entre Dom Casmurro, do Machado de Assis, e Otelo, de Shakespeare.

Falando sobre o progresso como desconstrução de um ambiente para a reconfiguração de um novo, você disse que “a arte é para discutir o que está aí, ela é um pouquinho mal-educada, um pouquinho maluquinha, um pouquinho para a frente”. Você realmente falou isso? O que quis dizer?
Não, não. Assim desse jeito eu não falei nada, não. Eu não me lembro. Sabe-se lá, a gente responde cartas, manda e-mails, eu não tenho controle sobre isso.

Sobre o que trata sua palestra “O aluno que não gosta de ler” na Feira do Livro?
São dicas educacionais para essas professoras trabalharem com crianças que não gostam de ler.

Na sua opinião, qual o caminho para aumentar esse percentual de leitura entre crianças e adolescentes?
Não sei, não sei. Eu acho que seria uma cultura em que os pais gostassem de ler e fizessem os filhos gostarem de ler. Seria a única saída. Mas como eles não leem, os pais não leem, os filhos também não leem.

Os enredos de aventura e suspense das suas obras são fruto do gosto pessoal ou da melhor aceitação do público?
Não sei responder essa pergunta. Eu gosto de escrever livros assim.

Quais as diferenças entre obras como as suas, que têm esse fundo de realidade, e obras mais fantasiosas, como Harry Potter?
Ah, eu acho maravilhoso Harry Potter, sou fã do Harry Potter. Eu tenho alguma coisa de fantasia também. Não existe alguém que faça uma droga para fazer todas as crianças do mundo obedecerem. Ninguém fabrica um avião de ouro maciço, como em Pântano de Sangue. Ninguém pega as crianças abandonadas do Brasil para escrever O quarto reich nazista. Também são fantasias, né? Eu também trabalho com isso. Agora, ela é brilhante, ela é maravilhosa. Só que o folclore dela é um folclore europeu, isso não faz parte do folclore brasileiro. Não dá para escrever uma história como essas histórias que ela faz, com esses bichos, fadas, esses bruxos. Nenhum brasileiro poderia fazer aquela história.

Dos seus mais de 21 milhões de livros vendidos, boa parte é destinada aos acervos de escolas. Algumas delas adotam suas obras como leitura obrigatória. Como você avalia essa obrigatoriedade?
Se não for assim, as crianças não leem. No Brasil, os pais não compram livros para os filhos. Se a professora não mandar eles lerem, eles não lerão.

Você é a favor, então?
Não sei se a favor, nem contra. É isso que existe. Eu gostaria que os pais comprassem livros. Isso não acontece na Europa, por exemplo. Nenhuma professora manda comprar livros, os pais compram livros.

O seu primeiro livro juvenil, A droga da obediência, foi um grande sucesso e impulsionou a continuidade das aventuras dos Karas em forma de mais cinco livros. O último deles, Droga virtual, foi tirado de circulação por você acreditar que ele não se sustentaria devido às mudanças tecnológicas constantes. Você já pensou em reescrever a obra de maneira mais atualizada?
Não, ele nunca foi lançado. Ele nunca foi impresso. Jamais existiu e jamais existirá. Ele não deu certo. Eu estava falando de um computador do ano passado que parecia ser do século passado. Você não deve escrever sobre tecnologia, não dá, zero. Nunca mais tentarei, ninguém deve tentar porque não dá, vai estar sempre desatualizado.

A possibilidade de transformar as tramas que envolvem os Karas em um seriado para a TV não foi mais cogitada?
Volta e meia vem alguém tentando fazer filmes da Droga da Obediência mas o dinheiro não aparece.

Essa é uma meta sua?
Sei lá, não sei dizer. Deixa rolar.

Quais as suas expectativas em relação à adaptação do seu livro O fantástico mistério de Feiurinha para o cinema, por uma equipe liderada pela Xuxa?
Espero que seja bom. Eu não sei, não pedi pra ver o roteiro, nem pra acompanhar as filmagens. Eles vão fazer a adaptação do jeito que quiserem. E eu tenho medo que eles deformem muito a história. Deformarão, sem dúvida. Eu nem vou reconhecer a história se eu for assistir o filme. A vontade que eu tenho é de não assistir o filme.

Este é o primeiro ano que a Feira do Livro de Joinville recebe apoio da prefeitura. Que medidas o governo pode e deve tomar para incentivar a leitura, já que esse hábito influencia diretamente na educação?
O governo tem apoiado, dado dinheiro para as feiras, isso é muito bom.

Você acredita que a era digital vem auxiliando na construção de crianças e adolescentes com maior visão de mundo e alimentando hábitos de escrita e leitura ou, ao contrário, o meio digital as tem afastado da literatura?
Eles não estavam lá, como podem se afastar? Eles não se afastaram, eles não estavam no mundo da leitura.

Não tem incentivado, então?
Não sei, realmente não sei. Não sou especialista na internet.

Você tem algum livro para leitura na íntegra divulgado na internet?
Não sei.

Você trabalhou como jornalista no jornal A Última Hora. Como foi essa experiência? Como ela influenciou na hora de passar a escrever ficção?
Eu sempre escrevi como jornalista. Certamente o fato de eu saber escrever me ajudou na hora de fazer ficção.

Você é jornalista formado ou não?
Não, não existia isso na minha época. Isso foi começar a existir depois que eu já era jornalista.

E o que você acha da obrigatoriedade do diploma?
Eu acho um horror, um absurdo. Vai ter que ter diploma para ser escritor de novelas infantis agora? Por que um engenheiro, por que um médico que escreve bem não pode escrever em um jornal? Por que um historiador não pode escrever em um jornal? Por que um sociólogo não pode ser jornalista, por quê? Isso foi a ditadura militar que criou para controlar a produção jornalística. Estamos vivendo numa lei da ditadura militar. Espero que, o Supremo agora está julgando, espero que derrube a obrigatoriedade do diploma. Isto é um crime contra a liberdade de imprensa. Qualquer um tem o direito de escrever num jornal: isso é liberdade de imprensa, não é porque você tem um papel do governo dizendo “você pode, você não”. Isso é uma violência, um absurdo total. Espero que caia.


*Tuane Roldão é acadêmica de Jornalismo do Bom Jesus/Ielusc

800x600. ©2005 Agência Experimental de Jornalismo/Revi & Secord/Rede Bonja.