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Matéria 7953, publicada em 04/03/2009.


:Arquivo pessoal

Djulia com sua cachorra, Lucinda

A infância e a memória numa leitura da obra de Diane Arbus

Ariane Pereira


Em meio a lembranças, mitos da infância, memórias e experimentação dos sentidos, Djulia Justen, formanda em jornalismo, construiu sua monografia “Eterna infância – uma leitura da obra fotográfica de Diane Arbus”. O casal que compunha a banca, Jacques Mick e Deise Freitas, deu ao trabalho a nota 9,5. Djulia teceu uma aura de sonho com o texto lido durante a defesa de sua pesquisa, explicando como fez uma leitura empática das obras da fotógrafa que tanto a encantou e nela despertou um “estranhamento familiar”. A estudante partiu em direção oposta à visão de Susan Sontag, também fotógrafa, que vê as obras de Diane Arbus como uma exaltação do feio.

A leitura que Djulia, fotógrafa freelancer do jornal Notícias do Dia, quis fazer em sua pesquisa foi a tentativa de dar um significado próprio à obra, sem se ligar a autoria. Como disse à banca em um dos momentos de réplica, para ela, Diane Arbus estava sendo “cega, surda e muda” para permitir à estudante uma leitura livre. Deise, doutora em literatura e também fotógrafa, questionou a liberdade de Djulia: até que ponto se pode enxergar o que quiser numa obra? Isso não seria ilusão de leitura livre? Porém, levando pela mão a platéia presente no anfiteatro, na noite abafada de terça-feira (3), pelos caminhos obscuros da fotógrafa, Djulia fez a sua própria leitura de algumas fotos, nas quais não era possível identificar se os personagens eram ou não portadores de doenças mentais e físicas, se eram adultos ou crianças, se estavam rindo ou chorando.

“É preciso coragem para se expôr. Coragem e certa loucura”, sentenciou Jacques, referindo-se à proliferação de mensagens pessoais e particulares na pesquisa de Djulia. De acordo com o professor, a interpretação de memória que a recém-formada jornalista abordou no trabalho foi “ingênua” e necessitava de mais cautela com o atraiçoamento que as memórias causam. Jacques também citou o mesmo anotado por Deise anteriormente, sobre o “desprezo” do lado formal da fotografia na pesquisa. Questionada sobre o assunto, Djulia confirmou a falta de destaque para o lado formal. Segundo ela, fez essa escolha por não ser ainda uma fotógrafa tão experiente. No entanto, afirma que não deixou o assunto completamente esquecido na pesquisa, pois falou de aspectos de luz e sombra nas fotos.

Fora alguns lapsos de revisão, a banca achou a escolha do objeto de pesquisa acertada e a revisão bibliográfica bem feita. Para Jacques, a relevância da monografia de Djulia é pessoal, pois ela se mostrou uma leitora especial e qualificada em termos de fotografia. A estudante destacou que levará consigo para sempre a experiência desse trabalho. Para completar o clima de conto de fadas — ideia explorada no trabalho escrito e elogiada pelos arguidores — um fato diferente: no momento da deliberação da banca para decidir a nota, os alunos que tinham a tarefa de redigir uma matéria ou um relatório sobre a monografia sentaram-se em volta de Djulia como se ela fosse uma contadora de histórias ao invés de simplesmente a rodearem, como geralmente acontece.

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