Revi Bom Jesus/Ielusc

>>  Joinville - Sexta-feira, 28 de janeiro de 2022 - 03h01min   <<


chamadas

Matéria 6464, publicada em 20/06/2008.


:Reprodução

Logotipo do grupo que faz pesquisas com software livre

Grupo de alunos da Udesc liberta usuários dos softwares proprietários

Gustavo Cidral


É em uma subdivisão da sala 111 do bloco F, de aproximadamente 4 por 6 metros, que cerca de 17 acadêmicos de Ciências da Computação da Udesc se reúnem todos os dias. Entre móveis velhos doados por professores, computadores doados por instituições de ensino e uma cafeteira adquirida por eles mesmos, os jovens, todos na faixa de 20 anos, cooperam para o alcance de um ideal: a busca da liberdade no mundo digital.

Colméia é um grupo de pesquisa que integra professores e alunos do Centro de Ciências Tecnológicas da Udesc e utiliza, pesquisa e desenvolve sistemas computacionais em software livre. O núcleo nasceu no final de 2002. Quando Marco Carvalho de Oliveira, que está há mais tempo no Colméia, entrou para o grupo em 2006, havia apenas dois computadores. Até o ano passado, Dino Raffael Cristofoleti Magri completava a dupla de bolsistas. Hoje são oficialmente quatro, mais outros que ganham bolsa dos parceiros de projetos e alguns voluntários. “Eu não sabia nada de Linux quando entrei. O Marco foi quem me ensinou”, conta Dino. O estudante de 20 anos está no segundo ano de faculdade e é o estagiário que ficará no Ielusc nas terças e quintas-feiras pela manhã e nas sextas-feiras à tarde para dar assistência aos usuários do novo sistema operacional instalado nos computadores do campus.

Da esquerda para a direita. Em pé: Dino, Juliana, Felipe, Elaine, Lucas. Agachados: Marina, Alan, Marco, Ricardo, Omir.

“O carro-chefe do Linux é poder adaptá-lo de acordo com suas necessidades e sem gastar nada”, afirma Dino. O software livre é mais do que uma alternativa. Para o Colméia, é uma filosofia. O GNU/Linux oferece quatro liberdades ao usuário: executar, alterar, copiar e distribuir. Das várias distribuições, a que mais popularizou o Linux foi a Ubuntu. A cada seis meses uma nova versão é disponibilizada. A que foi instalada no Ielusc é a 8.04, lançada em abril de 2008. A próxima atualização será em outubro, portanto, a 8.10. Grandes corporações são adeptas dos programas de código aberto. Algumas delas: IBM, Yahoo, Intel, Google, Globo.com, Correios, Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal e Nasa.

A instituição privada de ensino pioneira no uso do open source em Joinville é o Ielusc. Jean Rafael Schulz, analista de sistema e administrador de redes do Secord, conheceu alguns membros do Colméia no Flisol (Festival Latino-americano de Instalação de Software Livre) deste ano. O evento acontece em várias cidades da América Latina simultaneamente. Em Joinville foi organizado pelo Grupo de Usuários Linux de Joinville, o Guxlle, que promove discussões e encontros “presenciais” para troca de experiências e instalação do sistema operacional nas máquinas de quem estiver interessado. Como o Ielusc estava nessa fase de migração, Jean procurou Marco, do Colméia, para disseminar o software livre no campus. Dino se interessou pelo projeto e se propôs a ajudar em cursos para os funcionários, desenvolver scripts de configuração e configurar as máquinas. Devido à burocracia, o Colméia não pôde ajudar naquele momento, então o Secord assumiu toda a responsabilidade. “A faculdade vai estar à frente das outras, pois os estudantes vão conhecer programas diferentes, o que abre o leque de conhecimento em softwares, fato importante no mercado atual em que cada vez mais grandes empresas adotam os softwares livres”, enaltece Dino. Hoje, 113 computadores do campus têm Linux e 75% funcionam no modo dual boot (com dois sistemas operacionais).

Outros projetos

Após um ano e meio no Colméia, Dino propôs a criação de um livro-consulta, em que reuniria explicações sobre o grupo e o mundo GNU/Linux. Então, com o apoio dos integrantes, foi elaborado o Colméia GNU/Linux Book. O projeto está em andamento e conta com a ajuda da maioria dos participantes. Todos os artigos e tutoriais escritos pelos membros também estão reunidos no blogue do grupo. Os registros servem para que o conhecimento gerado lá dentro não se perca com o tempo e seja repassado para os novos integrantes e quem mais desejar acessar as informações.

Laboratório de informática numa escola municipal de Joinville.

Dentre os projetos, o Remasterização da Distribuição Edubuntu se destaca. Tem como objetivo modelar o sistema dos computadores escolares para conter todos os pacotes requisitados pelos professores da rede municipal de ensino. O Colméia atingiu quase 13 mil alunos em 48 salas no ano 2007, segundo a Secretaria de Educação. Até este mês, o Edubuntu deve ter chegado a 15 mil alunos. Cerca de 50% dos computadores da rede municipal têm o sistema operacional Linux.

Acoplado ao Edubuntu, desenvolveu-se outro projeto: o Multi-Terminal. Consiste na utilização de um único gabinete para conectar quatro monitores, teclados e mouses. Essa tecnologia possibilita que a capacidade do computador seja usada por inteiro, economizando 60% com gastos na compra de equipamentos. O projeto é baseado nos estudos e tecnologias desenvolvidas pela UFPR/UFRJ com base no trabalho de um estudante que precisava dividir o computador com a namorada.

Máquina do projeto Multi-Terminal.

“As crianças chegavam em casa pedindo aos pais para colocarem o Tux nos computadores”, conta o bolsista Alan Rafael Fachini. Tux é o pingüim mascote do Linux e personagem de alguns jogos educativos instalados nos PCs das escolas. Várias cópias do software livre foram distribuídas aos pais a pedido dos alunos. As crianças, por estarem começando a mexer com informática, não estranham e se acostumam rapidamente a usar o Linux, que é até mais fácil em alguns aspectos. O preconceito que há vem de alguns dos professores. “É um problema cultural. Depois de anos acostumadas a apertar sempre o mesmo botão no mesmo lugar, algumas pessoas têm dificuldade para assimilar o novo”, explica Alan.

Caça-níquel transformado em computador pela Unisul. O estudante é um dos envolvidos em outra proposta – o projeto Piá. O objetivo é fazer a conversão de máquinas caça-níqueis apreendidas em todo o estado e que antes eram destruídas. Os computadores têm boa configuração e custam de 1.500 a 2 mil reais. A responsabilidade do Colméia é manter o sistema GNU/Linux rodando nas máquinas e fornecer treinamento técnico para os responsáveis pela manutenção. O custo fica em torno de 100 a 150 reais para comprar mouse, teclado e pintar a caixa. Um estagiário do curso de Design da Univille e um grafiteiro do bairro Paranaguamirim são os encarregados de deixarem a máquina esteticamente bonita. Joinville tem cerca de 2 mil caça-níqueis apreendidos, porém não há ainda na cidade nenhum computador do projeto Piá. A Univali e a UFSC são pioneiras do projeto em Santa Catarina. A iniciativa foi do Ministério Público e o Colméia tem o apoio da Casa Brasil e do comitê Fome Zero.



800x600. ©2005 Agência Experimental de Jornalismo/Revi & Secord/Rede Bonja.