Revi Bom Jesus/Ielusc

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Matéria 0223, publicada em 03/09/2003.


:Letícia Corioletti

“A periferia não é um lugar. Ela está dentro das pessoas”

JPN

Denunciar as barbaridades da periferia, da polícia, das autoridades, do racismo, das drogas. Escancarar o que o governo insiste em esconder. E expor aquilo que a mídia comum não costuma destacar. Essa é a “missão” da, geralmente, única voz da periferia: o hip hop. Em Joinville, o Atitude de Rua, desde 1997 segue essa linha. Faz parte da Família JO, que reúne vários outros grupos do mesmo estilo, inclusive um só com mulheres, e serve como uma espécie de porta-voz da periferia da cidade.

Revi – Fale um pouco de você.

Aranha - Eu sou o rapper Aranha, tenho 26 anos de idade, estou completando hoje 26. Trabalho com a cultura hip hop há 11 anos. Já desde moleque sabia de minha vocação, desde pequeno sou acostumado a cantar, fazer pit box, mandar um rap assim na rua com os parceiros. Então, tento ajudar a população, através de trabalho filantrópico.

Revi – Você é de Joinville?

Aranha – Certo, sou de JO, nascido e criado aí.

(Entra Quebinho)

Revi – Quando você começou a ter contato com a cultura hip hop?

Aranha – Olha, mano, meu primeiro contato de hip hop, acho que foi quando vi o que queria, porque sou um cara humilde, vim de uma família pobre, sofredora, e comecei desde aí a perceber o valor nosso. Então quero demonstrar esse valor através da música. Assim fui pegando, cantando e ouvindo a canção e botando pra frente aí pros moleques aí das ruas sair das drogas.

Revi – Isso faz quanto tempo?

Aranha – Faz 11 anos, no caso, que comecei mesmo a me dedicar ao hip hop, mas antes não tinha portas abertas ainda, aí não dava pra levar pra frente no caso. Ficava, tipo trancado no gueto.

Revi – Vocês tinham outras idéias antes? Mudou alguma coisa desde que vocês começaram, há 11 anos?

Aranha – Não, as idéias que tinha nas antigas era ser campeão de skate. Andei de skate também, e junto com o hip hop, fui levando esse esporte, porque andava sempre na rua. Até meu apelido é aranha por causa do skate.

Revi – Como é que surgiu o Aranha no skate?

Aranha – Fui participar de uns campeonatos, aqui no Shopping Mueller, em 96. Tinha uma pista, uma 45, que é um obstáculo assim com 45 graus na parede. Aí eu vinha de lá, subia com o skate na parede e fazia a volta com o skate e voltava pro obstáculo. Daí, ‘ah, o Aranha pá’, aí fechou (risos).

Revi – Vamos pedir pro Quebinho se apresentar, dizer o nome, idade e o que faz no hip hop.

Quebinho – Meu nome é Cleberson Luís Fagundes de Oliveira, vulgo Quebinho. Minha função no hip hop é de MC, né, escrever letras e cantar o rap também. Sou o MC, o responsável por fazer a festa. Esse seria o meu cargo.

Revi – Pode falar um pouco da sua história no hip hop, como o entrou, como o descobriu, o que fazia antes?

Quebinho – Comecei conhecendo mais ou menos na época do negão aqui [o Aranha]. O primeiro rap que escutei foi o Gabriel, o Pensador, só que depois as músicas dele saíram um pouco do que tem a ver as letras de rap. Daí foram chegando mais grupos, fui curtindo. Isso foi em 93, 92, por aí. Tive também um tempo no skate, e essa foi minha caminhada.

Revi – Antes do hip hop, você tinha outro tipo de atividade?

Quebinho – Só estudava. Gostava de cantar, pertencia a uma religião, ia com meus pais. Meus pais seguem ela até hoje.

Revi – Qual religião?

Quebinho – Assembléia de Deus. Igreja Assembléia de Deus. Aí, houve um tempo ali que desisti de ir na igreja. Foi onde conheci o skate e através do skate comecei a curtir o hip hop, que é o rap.

Revi – Você estudou até que momento? Fez o que, colégio, 2° Grau?

Quebinho – No colégio comecei a cursar o 1° ano, mas não concluí.

Revi – Qual a relação hip hop e skate?

Quebinho – A relação hip hop e skate é a rua.

Aranha – É procurar as dificuldades e enfrentar um obstáculo ali. Tu vai, persiste nele até conseguir. Acho que é essa a relação entre hip hop e skate. Querer conquistar aquilo que tu quer.

Revi – Qual é a relação dos grupos de hip hop em Joinville?

Aranha – A gente se tromba nos eventos, chamam pra cantar. Quando a gente faz eventos também convida eles pra tocar, e aí toca na boa. Tem uns manos que fazem eventos também. Chamam nós pra tocar, é intercâmbio aqui dentro mesmo...

Revi – Vocês são contra as drogas. Tem algum grupo de hip hop, ou ramos do hip hop, que são a favor das drogas?

Aranha – Aqui em JO?

Revi – Em Joinville e no geral.

Aranha – Aqui em JO não tem. Pelo menos o que eu sei, de convivência que tenho, também é muito pouca a convivência. A gente mais se tromba é nos eventos, mas acredito que não. Acredito que eles vão passar as idéias no palco e utilizar a mente. Não acredito que vão ou façam coisas atrás disso. E na música em si, no Brasil inteiro, tem o Planet Hemp, que faz apologia à maconha, tem o De Menos Crime, que é uma banda que a gente já trouxe pra Joinville, mas pra passar rap, pra curtir a rapaziada, não pra usar droga. Escutar rap não é isso. Qualquer um usa droga nesse mundo aí...

Revi – Vocês eram usuários de drogas ou experimentaram algum tipo pra depois começar a ser contra? Tiveram experiência na família, alguma coisa assim?

Aranha – Já usei. Isso aí é uma realidade, não posso mentir. Graças a Deus hoje fui resgatado pelo rap. Já usei cocaína e maconha, só. Graças a Deus. (risos)

Quebinho – Eu usava crack antes. Mas hoje, resgatado pelo rap...

Revi – Por quanto tempo?

Quebinho – Acho que uns cinco anos. Comecei a usar com 13 anos. Estou com 23 agora.

Revi – Pra quem está de fora, muitas vezes, o hip hop é associado às drogas. Mas pelo que vocês estão falando, justamente o rap e o hip hop fizeram vocês sair. Isso é uma coisa freqüente? Como vocês vêem isso?

Quebinho – Isso acontece com muitos. Tipo o Sabotage. Sabotage era um dos líderes do tráfico, o cara era drogado, e o rap resgatou o cara. Tirou lá do mundo das drogas, entre os traficantes, polícia, e resgatou o cara. Ele gravou um cd, até que mataram o cara no final.

Revi – Quem matou, a polícia?

Aranha – Treta de traficante.

Revi – Como é a relação de você com a polícia?

Aranha – Olha cara, é mó visado pra caralho – A polícia tem na cabeça dela, que como alguns de nós usavam antes, acha que a gente canta e faz as paradas. Tipo eu, tô com o mano conversando. Como sou humilde, falo com todo mundo, seja empresário, seja catador de lixo. Aí, converso com os manos, trocando idéia, falando sobre os meus trabalhos de hip hop, porque eles gostam, e chega a polícia já dando geral. Bate na cara da gente, levamos chute na perna e depois pegam os documentos, olham.

Revi – Será que a polícia não faz essa análise de vocês porque durante seus shows muita gente usa drogas?

Aranha – Não vou dizer que não. Nas nossas apresentações, principalmente quando for um show em ambiente fechado...Mas a gente não tem a visão de todos pra falar. Cada um faz o que quer. Como eu disse, o hip hop é uma cultura que tira você das drogas, mas você vai no evento e faz o que quiser. Se quiser sair vai, escuta a letra, nós estamos lá pra isso, pra você sair. Mas tem esse tipo de problema nos eventos que a gente faz de vez em quando, infelizmente.

Revi – E a polícia bate?

Aranha – Não, não bate em geral porque eles não entram em ambiente fechado, não têm mandato, não tem isso e aquilo.

Quebinho – No último evento que teve de hip hop até choveu polícia...

Aranha – No Quênia ali né, até foi polícia ali, infelizmente

Quebinho – Mas foi por causa dos menor, né?

Aranha – É, foi por causa dos menor, mas nada a ver, cara. Vê se eles vão ali no Big Bowling, entrar, tirar os menor dali. Isso aí talvez é preconceito da polícia mesmo com o hip hop, que fala deles também, mas da polícia má, não da polícia que protege o ser humano, mas da polícia que bate no ser humano.

Revi – Vocês acham que ainda existe a polícia boa?

Aranha – Olha, no modo de vista meu, principalmente quando ele tem o abuso na mão, abuso da roupa, da arma, ele te bate, te esculacha, te xinga de tudo, e tu não vai sair dali com o braço cruzado, a cara vermelha de vez em quando...

Revi – Então, talvez, essa polícia boa fosse para poucos?

Aranha – É... a polícia eu não sei, mano...

Revi – Vocês saíram das drogas e a música de vocês, o hip hop, é marcada por essa idéia de tirar a pessoa das drogas. Então como é a relação de vocês, já que vocês estão na periferia, com aqueles que traficam as drogas? Como é essa relação dentro da comunidade?

Quebinho – Tem muitos, que eu já não prefiro evitar chegar perto, ter algum contato, fazer amizade mesmo, né. Mas tem muitos, que fazem aquilo mesmo por sobrevivência. Sabem que é uma coisa errada, que tão prejudicando vários moleques, mas, assim, a relação eu e traficante e bandido eu acho que seria a mesma né, normal como seria com você, como seria com um deputado, ou com, como ele falou, um catador de lixo. Um empresário, mas sempre visando que eles tão fazendo um dinheiro pelo lado sujo. É um relacionamento normal.

Revi – No que vocês se diferenciam dos outros grupos daqui de Joinville?

Aranha – Acho que nós nos diferenciamos mandando mais rap nacional. A gente manda mais rap nacional, tipo em cima do palco e nos mecânicos. Eu fui ali nuns eventos que uns parceiros tão fazendo aí também...Até tava nesse último, não no penúltimo, que teve lá no Quênia, no dia 1°, e o público me falava que ‘só rap gringo tá rolando. Mas vou fazer o quê, vou falar pros caras lá? Falei! Mas os caras não querem liberar o rap nacional. Como é que tu vai mostrar o rap nacional se bota nos mecânico rap gringo. Muita gente entende, outros não. E como nós queremos as minas também no palco cantando, queremos passar mais rap nacional pra elas se identificar mais e entender mais.

Revi – Quais são os lugares aqui em Joinville onde se pode curtir o hip hop?

Aranha - A casa Quênia, que era a Designer antes, e a gente abriu a casa Black, no Floresta, zona Sul. Mas não tem uma casa própria, que toda sexta, todo sábado role hip hop, infelizmente.

Revi – E como vocês poderiam definir o Atitude de Rua?

Quebinho – O nome vem assim até por andar várias vezes na madruga. Quando tava no skate, ficava com o skate, andava durante o dia, já ficava ali à noite, curtindo um som, fazendo uns free style, rimando, os pit Box. E tudo isso ali assim, e nós concluímos que se o cara não tiver atitude, se não tiver respeito na rua, o cara jamais sobrevive. Tipo, se eu saio aqui à noite, no centrão, saio pagando de bam bambam, já era, né. E Atitude de Rua vem disso aí mesmo, ter atitude e respeito com o próximo na rua. Não só na rua, mas em qualquer lugar.

Revi – Que tipo de ações o Atitude de Rua promove?

Aranha – Essas ações filantrópicas aí, que tamos falando, pra ajudar os manos a sair das drogas, que é muito grande. Quem sabe, tá ligado, que é grande mesmo, e dando essas palestras aí, nessas oportunidades que rolam aí pra divulgar melhor o nosso trabalho até pra que a sociedade abra as portas mais pro hip hop, nos colégios principalmente onde tem mais crianças, e nós queremos levar essa parada pra frente aí.

Quebinho – O rap não traz dinheiro, não traz lucro pra ninguém, porque é um dos sons menos valorizados do Brasil. E eu penso assim, pô, eu tô no rap pra ter um futuro pro meu filho, pros meus netos, ter um futuro melhor, um Brasil melhor, Joinville melhor, não por fome, dinheiro. Pô, que massa o meu filho sair na rua ali e eu ficar com a cabeça fria que não vai ter treta como tem...

Aranha – ...que vai voltar pra casa, né, mano.

Quebinho – Que vai voltar pra casa, é, verdade.

Revi – O que é exatamente o Atitude de Rua hoje?

Quebinho – O Atitude de Rua hoje é... né, começou comigo e o Fat, meu parceiro, mora lá no Adhemar [Garcia], zona Sul.

Revi – Em que ano começou?

Quebinho – Isso foi em 97 que nós começamos. Passei pelo batalhão e nós ficamos um ano parado, sem ensaiar. Então, de 97 pra cá nós cantamos acho que uns cinco anos sozinhos, não, uns quatro anos sozinhos. Daí eu me ajuntei com essa mulher, então já ingressei ela também pra cantar. Depois daí arrumamos um DJ, porque no começo também não tinha como comprar um MK2(o que é?), que é muito caro. Com o tempo foi clareando e estamos aí hoje com o Atitude de Rua.

Revi – A prefeitura já chamou vocês para algum evento?

Aranha – (Risos)

Quebinho – Nós tocamos uma vez num negócio que teve ali na praça [Nereu Ramos], que era o Carlito [que tinha chamado].

Aranha – É, mas não a prefeitura, foi um partido no caso o PT (partido dos trabalhadores) que apóia bastante o hip hop e sempre esta apoiando.

Revi – Vocês são associados a algum partido? São petistas?

Quebinho – Olha, até hoje eu não tenho.

Aranha – (Risos) É difícil. Eu me identifico mais até, não vou dizer que sou. Mas ajudo aquele que me ajuda e o PT está ajudando. Eu posso ajudar ele também.

Revi – Eles ajudam vocês de que forma?

Aranha – Abrindo espaço para a gente divulgar o hip hop. Panfletagem também, essas parada.

Revi – Qual a opinião de vocês sobre a prefeitura hoje? Ela poderia fazer coisas por vocês que não faz?

Aranha – Com certeza, primeira coisa era o Centreventos. Era um local que a gente podia debater com todos os colégios juntos, lá dentro, um espaço pra toda a comunidade. Podia fazer lazer com o hip hop junto, como hoje na praça que eu tava esperando o mano aqui, tava um colégio ali, porque hoje é dia da educação física. Estavam ali com a praça de lazer, as crianças brincando nas paradas, um palco ali sobrando, se a gente soubesse já ia levantar (risos). Mas a prefeitura não... pra pegar espaço, pra fazer evento... Ali na Praça Nereu Ramos foi o último evento que fizemos antes de ser fechado pra construção nova. E a abertura nossa foi de hip hop, foi o evento Largue as Drogas e Mate sua Fome. E [a praça] fechou, daí esperamos ela abrir, eu queria fazer. Até tô com a agulha (oficio) aqui que o vereador ali do PT, que eu fui lá pegar... Um ofício pra ir lá na Conurb pra fazer outro [evento], que quero fazer esse do brinquedo no dia 6, pro Dia das Crianças. Mas falaram que não, que não tão liberando a praça agora, que só tão liberando a da [praça] da Bandeira. Aí tenho que correr atrás de palco e ali já tem palco pra fazer. E no caso a prefeitura, até vou falar, porque vou ter que ir lá amanhã provavelmente. Vou lá pra ver se conseguimos fazer ali na praça da Bandeira ou ali na Ramos.

Revi – Sobre a questão cultural. Como é que vocês vêem, por exemplo, a realidade que vocês têm na periferia e a realidade que é passada de Joinville pra fora, que é essa Cidade dos Príncipes, dos grandes eventos, dos grandes shows. Como é que vocês vêem essa questão de o que é divulgado sobre Joinville e do que vocês vivem e experimentam de Joinville?

Quebinho – Penso assim que, lá fora, quem olha pela televisão ou por notícias de jornal, revistas, “Joinville cidade das bicicletas”, “das flores”, “dos príncipes”, são vários, mas eles lá imaginam uma coisa, mas a realidade aqui seria bem outra. Tem lugar pobre. Um negócio errado que eu vi na televisão: um cara falou que em Joinville não tinha periferia, eu discordo, porque...

Aranha – ... disse que não tinha favela. Até o Luiz Henrique antes de se eleger lá falou que Joinville não tem favela. Não precisa ter morro pra ter favela. Não preciso morar num morro pra dizer que sou pobre. Preciso [pra dizer que sou pobre] passar fome, morar de beco, de mocó [foragido]. Tenho muitos manos (amigos) que moram de mocó, passam fome. Isso aí é periferia, isso aí é favela, não preciso morar num morro com um monte de casa empilhada pra dizer que passo fome.

Quebinho – Acho que cada cidade tem aquele lugar pobre ...

Aranha – ... é sempre excluído, desses tipos de assunto. Por isso que o Centreventos ta lá parado agora, ta lá parado amanhã, depois de amanhã, chega final de semana tem uma convenção, mas que não é daqui, ou, se é, é de alguém importante, porque pra periferia mesmo, chegar lá, aparece os homens (autoridades) e ó, vaza... É assim que eu vejo, infelizmente, a minha cidade.

Revi -- Quem são as pessoas normalmente que curtem o rap aqui em Joinville? Faixa etária, situação econômica...

Quebinho – Olha, começou assim mais pelas pessoas pobres. Mas hoje em dia já vi que, evoluiu pra caramba em JO o rap. Hoje em dia vejo carango (carro) aí passando curtindo rap. Passo lá pelo barraco e o cara curtindo rap, e onde vai o cara vê o rap crescendo a cada dia que passa.

Revi – Mas não tem problema dele sair um pouco da linha?

Aranha – Tá falando da moda?

Revi – É, de virar modinha?

Aranha – É como ele falou, tem uns carros, isso e aquilo. Não vou dizer que o cara ali é rapper. Pode comprar um cd e escutar porque o vizinho tem. Mas a gente mais pelo povo humilde mesmo e quem se interessa vem nos eventos. Nós temos uma loja aqui também de hip hop divulgamos com panfletagem, carro de som... não importa se é burguês ou pobre, nós queremos que você venha e preste a atenção para que não aconteça com seu filho amanhã.

Revi –Como é a questão do trabalho na região onde vocês moram?

Aranha – a cidade sempre foi mais no centro, ta ligado, antes não tinha carro de papelão, latinha, que se não fosse isso imagina quantos não iam ta aí desempregado.

Revi – O que a Fundação Cultural [de Joinville] ou a Secretaria [Estadual] da Educação poderiam fazer para atender a periferia da cidade?

Aranha – Eles poderiam abrir mais espaço pra nós. Porque, como a gente canta hip hop, a gente vai mais no povo pobre mesmo, nos mano fudido mesmo. Acho que aqui em JO não tem cultura que vá direto ao local. Acho que eles sempre passam um pano por cima.No Centreventos podia rolar hip hop no Festival de Dança, era uma oportunidade também, porque ali centraliza mais os jovens, não lá dentro, com os bailarinos, to falando ali onde tem feira mesmo.

Revi – Vocês tentaram esse contato?

Aranha – Um camarada que trabalha lá no PT tentou, mas eles não abriram espaço.

Revi – Em Joinville tem muito racismo?

Quebinho – Olha, eu acho que tem, cara.

Revi – Já passaram por isso?

Aranha – Passei pela polícia. Procurando um trampo, até por causa do cabelo(não conseguiu). Tu vai entrar no mercado também, já botam segurança pra nós, a gente já tem até segurança (risos). É como meu velho sempre falou pra mim: nós moramos numa cidade alemã, a cultura deles é diferente, se eu morasse em Floripa ou Curitiba, que é cidade turística, normal, mas aqui eles não têm esse conhecimento. Pra eles é novidade, entendeu?

Revi – Vocês têm idéia de lançar um cd? Já tem alguma coisa preparada?

Aranha – Ta tudo preparado. Só precisamos do cascalho mesmo pra lançar o cd

Quebinho – Até gravamos um cd demo, mas agora nós estamos com várias músicas novas, com várias idéias melhores, um som bem mais aperfeiçoado. Então estamos em busca de gravar o cd.Na correria aí, sete anos já.

Revi – O que, pra vocês, aconteceu com o Gabriel, o Pensador? Ele entrou no mercado e começou a entrar nas modinhas? O que vocês acham?

Quebinho – Hoje em dia ele foi um dos que saiu, o rap é um trilho.

Aranha – Ele foi mais pra moda.

Revi – Se tiverem a oportunidade de gravar o cd vocês se submeteriam a isso? Vocês sairiam desse “trilho” pra conseguir o que ele conseguiu?

Aranha – Não, particularmente não porque, como falei, larguei meu trabalho, tudo, pra mexer só com hip hop. Quero ajudar mesmo essas crianças aí, pra ter um futuro melhor, por meu filho, pra ter um futuro melhor.

Revi – Você tem filhos?

Aranha – Ainda não, mas, se pá, já procurando o futuro dele (risos).

Quebinho – Tenho um, de sete meses, o Gabriel.

Revi– Do que tratam as letras do Atitude de Rua?

Quebinho – Tem várias. Tem a letra escrita sobre a vida de ladrão, que é um mundo de ilusão, sonha com carro, dinheiro... Um mundo de ilusão. Tem a Cidade das Flores, que fala “cidade das flores não é um mar de rosas”, como muitos pensam aí fora. Tem também uma que a gente se coloca no lugar de um detento, com várias histórias. Tem sobre a paz, um som sobre a paz, que é a Lei da Sobrevivência é a Paz, porque, sem paz, no mundo ninguém vive.

Revi – Vocês acham que o hip hop brasileiro poderia falar mais?

Aranha – Não, eles falam da realidade brasileira mesmo, cara.

Quebinho – O rap é realidade.

Aranha – O rap não esconde nada, por isso que até hoje é meio afastado.Não é um dance, que ta em todas as baladas aí.

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