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Matéria 6710, publicada em 14/08/2008.


:Luiza Martin

O público e os outros presentes na defesa assistem a um trecho de "Efeito Borboleta I"

Pesquisa mostra o infinito entre um tic-tac

Luiza Martin


Reunir filmes para estudar o tempo. Assim Paulo Guilherme Horn concebeu a pesquisa denominada “Tempo”. Na apresentação do dia 12 de agosto, sete partes de seis filmes ilustraram como se alonga a passagem do “tic” ao “tac” do relógio — “a capacidade do tempo de durar”. Guiado por Nara Marques através dos caminhos de Gilles Deleuze, Henri-Louis Bergson e outros teóricos, Paulo passou pela monografia com um 9,5 declarado na sala C-27.

O tema da pesquisa não remete diretamente às práticas do jornalismo. Ramayana Lira, professora da Unisul, participou da banca e parabenizou o Ielusc por dar oportunidade a trabalhos com temáticas mais abrangentes. Já Paulo teceu críticas à escolha limitada do que desenvolver na disciplina projeto experimental. Ele tentou rodar um curta-metragem baseado no conto de sua autoria, chamado “Contorno”, que está presente na monografia, mas são permitidas experimentações em quatro áreas: rádio, assessoria, meios impressos e vídeo (este permite apenas gêneros jornalísticos, como o documentário).

“A idéia de estudar o tempo surgiu pelo fascínio que as narrativas de fluxo de consciência exerceram tanto sobre minha leitura quanto sobre a minha escrita”, justificou Paulo na primeira frase do texto de sua apresentação. Ele analisou 15 filmes, “pois estes [todas as produções cinematográficas] parecem dispor de mais recursos para trabalhar a abstração do tempo, recursos que se tornam escassos na literatura”. A busca por obras em que os ponteiros (que rodam 360 graus em torno de um eixo em comum) sejam imprescindíveis culminou na divisão em casos simples e casos complexos de tempo. A cena de conflito entre os pistoleiros no filme “Era uma vez no Oeste” é exemplo do tipo simples — “a dança da morte” é mais longa que a matematização feita do tempo, o que remete à abstração. O período se enche de detalhes que o transbordam.

“Efeito Borboleta I” é um caso complexo, segundo Paulo. Ele explica que “há a criação de uma percepção dupla”, quando o protagonista vive um retorno a momentos não vividos no passado, partindo dos conceitos que Bergson desenvolve sobre o corpo, a percepção de imagens e a memória. Lacunas da memória do personagem são preenchidas e o corpo convive com essas novas experiências adquiridas. Enquanto a viagem acontece, o corpo abandonado no presente sangra. Um sangramento que dura menos que o conjunto de cenas que o antecederam. Para Ramayana, o teórico Bergson não foi “potencializado” nos filmes. Ela considerou “Tempo” um trabalho de “fôlego” e o recomendou para os alunos que queiram conhecer Bergson.

O professor Sílvio Melatti, do Ielusc, elogiou o desenvolvimento textual da pesquisa que reuniu “clareza e simplicidade, que esboçam segurança ao tratar de temas complexos”. Paulo foi colocado por Melatti, em meados do curso, dentro do grupo dos “relapsos atávicos” — composto por alunos de potencial sem assiduidade na entrega de trabalhos. O professor perguntou brincando se a pesquisa era uma vingança pelos velhos tempos. O aluno respondeu com risos. Outra inquietação por parte do avaliador foi o porquê de Paulo ter ignorado o jornalismo se a questão do tempo está presente nos textos noticiosos analisados em aula. Paulo afirmou que não pretende entrar no mercado pelas portas jornalísticas e que fará mestrado na área de letras ou literatura. “Ironicamente, tive minha pesquisa também limitada pelo Tempo (de entrega da monografia). Mas este estudo, não tenho mais como limitá-lo em duração pela minha vida afora”, comentou.

V. também:

Contornos do tempo (6712)

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