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Matéria 9852, publicada em 23/06/2010.


: Internet

Atores estudam para compor a apresentação

Monólogo de Fernando Pessoa estreia como peça teatral

Elis Regina



“Tudo se funde e só fica, fugindo, uma realidade-bruma em que minha incerteza soçobra e o meu compreender-me, embalado de ópios, adormece.” Este é um verso do poema “Na floresta do Alheamento”, de Fernando Pessoa, um monólogo introspectivo que motivou o diretor teatral Raphael Vianna a construir sua tese de mestrado e a peça de teatro. Vianna está concluindo a pesquisa no Rio de Janeiro e, ao mesmo tempo, dirige o espetáculo que será encenado pelos atores Samira Sinara e Alex Maciel, com estreia em setembro, em Joinville. Com desejo de construir novos projetos e participar de novas peças, os atores, que se conhecem há 7 anos, aceitaram o convite e, desde o mês de dezembro do ano passado, estão trabalhando na montagem, em conjunto com Daiane Dordete, assistente de direção, convidada pelo diretor para suprir sua falta nos ensaios e auxiliar os atores na composição dos movimentos.

Considerando a importância dos textos de Fernando Pessoa e de sua criação estética heteronímica, no qual o autor criava “falsos personagens”, que se tornavam verdadeiros ao longo de suas manifestação artísticas, a obra “Na floresta do Alheamento” se torna um dos monólogos mais diferenciados. A obra reveste em versos o pensamento, as perspectivas e as hipóteses da alma sem mostrar personagens concretos. “As ações não traduzem o que está sendo dito, e isso faz com que criemos novos movimentos para só depois mostrar a repercussão”, diz Daiane. Os integrantes tem como objetivos principais instigar e agregar novos pensares e sensações, além da pesquisa aprofundada de texto para compor as partituras corporais, montando um teatro diferenciado. De acordo com Samira, quando se trabalha com esse texto, se vê o esboço da movimentação dos atores do início até o fim.

O processo diferente de montagem da peça se caracteriza também pela ausência do diretor, que se comunica com os atores e produtores pela internet, com reuniões feitas via webcam. “É diferente essa questão da distância, mas não temos grandes problemas com isso. Sempre estamos em contato, recebendo sugestões do Raphael”, revela Alex. Para muitos que vão ao cinema e não imaginam todo o processo de concepção de um espetáculo, a Companhia Vai de Teatro criou o blog da peça. O site permite que os interessados acompanhem o andamento dos ensaios.

Apesar do conteúdo textual instigante, do talento dos atores joinvilenses e do amadurecimento que a cena teatral da cidade vem experimentando a passos lentos, existe um problema que os afeta diretamente: o reconhecimento da profissão. Amantes e defensores do teatro, eles acreditam que as pessoas são habituadas aos tipos de cultura de massificação. “Vejo uma deficiência dupla. A formação na cidade dificulta e o governo falha. A gente luta pela graduação e pode construir um mercado mais sólido”, desabafa Daiane.

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