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Matéria 5498, publicada em 13/12/2007.


:Felipe Silveira

Luís Fernando Assunção, Valdete Niehues, Altamir de Souza e Maria Elisa Máximo

"Anauê": Movimento integralista de Jaraguá do Sul é tema de monografia

Felipe Silveira


O movimento integralista foi a versão brasileira do fascismo e do nazismo e Jaraguá do Sul foi a cidade mais integralista do país. Por isso, Altamir Ricardo de Souza, que é morador do município, “mergulhou” na pesquisa sobre como o jornal Jaraguá foi porta-voz e agente formador do movimento no sul do país. O estudo em mais de 250 matérias do jornal, livros de historiadores locais e a orientação com a professora Valdete Niehues recebeu uma das melhores notas das últimas monografias do ano. O 9,5 surpreendeu o autor, mas não quem viu a argüição de Maria Elisa Máximo e Luís Fernando Assunção. Os professores concordaram que a monografia demora um pouco para chegar ao tema principal, a relação do jornal com o movimento, mas teceram muitos elogios à obra.

Dividida em cinco capítulos, a monografia “A proposta do jornal 'Jaraguá' no movimento integralista brasileiro em Jaraguá do Sul” detalha o movimento integralista no mundo, no Brasil e em Santa Catarina. O primeiro capítulo destina-se à importância da comunicação social, ao histórico da imprensa e sua relação com os movimentos sociais e políticos. Em seguida, Altamir detalha a Ação Integralista Brasileira (AIB) no país e no estado e a relação com o Jaraguá. Encerra com uma análise de como a cidade era um ambiente propício para receber o tipo de proposta dos integralistas e quais foram os efeitos na sociedade jaraguaense presentes hoje. Citou exemplos de como pessoas divorciadas são mal vistas e qualquer um que esteja sem fazer nada pela rua é visto como vadio ou “boa vida” - valores combatidos pela AIB.

O integralismo surgiu no Brasil através do jornalista Plínio Salgado. Em 1930 ele foi à Itália e se encantou com o ditador Benito Mussolini. Em 1932, junto com o advogado Gustavo Barroso, fundou a AIB em São Paulo. O movimento só chegou a Santa Catarina em 1934. Pregava idéias fascistas e nazistas, defendia a devoção aos superiores (Hitler, Mussolini e Plínio), adotava doutrinas militares e pretendia tomar o poder no país. Circulavam pesquisas com perguntas do tipo: “A milícia tem condições de tomar o município?".

O nacionalismo era sua principal característica. O cumprimento adotado pelos militantes brasileiros era a expressão indígena “Anauê” (imitava o “Heil, Hitler!”). Os inimigos dos integralistas eram os judeus e os comunistas. A ameaça vermelha era uma paranóia tão grande em todo o mundo que os integralistas brasileiros, além de amedrontar a população através dos jornais, panfletos e boatos, espalharam o que, para eles, seriam os “dez mandamentos do comunismo”:

Odiar a Deus.
Amaldiçoar o seu nome.
Proibir de guardar o domingo.
Desprezar pai e mãe.
Matar quando for útil.
Promover tudo quanto os cristãos chamam de desonestidade.
Tirar a propriedade de todos que tal possuem.
Mentir e jurar falso quando possa ser útil para nossos fins.
Desejar a mulher do próximo.
Fazer todos os sacrifícios para introduzir o comunismo em todos os países.



Apesar da crítica comum de Maria Elisa e Assunção sobre o trabalho estar cansativo, no sentido de que poderia chegar antes ao objeto da pesquisa, os dois professores capricharam nos elogios. “O trabalho está muito bom e não me surpreendeu, só ratificou o que o Altamir foi durante o curso”, afirmou Assunção. Maria Elisa ressaltou a dedicação do autor à pesquisa e enalteceu a escolha do tema: “Enfocando um objeto local, você permitiu uma análise mais ampla. Teu trabalho transcende Jaraguá. De repente parece que está falando de Joinville e aí a gente lembra de coisas da infância”.


Assunção, que é jornalista, achou que faltou falar mais sobre jornalismo. Sugeriu que Altamir usasse exemplos de processos parecidos na história, nos quais a imprensa exerceu um papel influente nos movimentos políticos e sociais. Maria Elisa chamou atenção para o fato de que o jornal não foi apenas um porta-voz, mas também foi “um agente constitutivo do movimento na cidade”.

As duas críticas, como não eram pesadas, foram feitas em seqüência para que Altamir respondesse ao final. Já passava de 10h20 quando ele começou. Mas também não havia muito o que dizer. Ele apenas explicou que o texto mais complexo e detalhado foi orientação de Valdete, pois a monografia tem suas próprias características.

Quando a banca se retirou para decidir a nota, Altamir contou que estava tranqüilo em relação à banca, mas um pouco nervoso por causa da apresentação em slides. “A menina que iria me ajudar não pôde vir e eu não esperava ter que apresentar e mexer no computador. Eu nunca tinha mexido num lap top até hoje”, disse, aliviado. Altamir fez questão de defender a monografia em 2007. “Eu queria passar o réveillon sabendo que não precisaria mais vir para Joinville neste ano, sabendo que o curso estava concluído”, conta o estudante.

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