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Matéria 5175, publicada em 22/10/2007.


Jornalistas têm muitas vidas em mãos

Ângelo Augusto Ribeiro*


Quando recebi o convite para ser paraninfo desta turma, junto veio a explicação do que seria um paraninfo: aquele professor que daria a última aula. Interpretei isso de duas formas: ou estas formandas, agora jornalistas, acreditam que ainda é o momento de aprender alguma coisa, mesmo com o diploma na mão; ou, elas queriam ter a certeza de que nunca mais teriam outra aula – principalmente comigo.

Claro que, como boas alunas que foram, e como boas jornalistas profissionais que agora passam a ser, a primeira alternativa é que está correta.

O aprendizado profissional, mesmo para aquelas que já atuam, ou atuaram, no mercado de trabalho, agora é que está começando. Não há mais laboratórios, não há mais o ambiente em que os erros são perdoados porque fazem parte do processo de aprendizado. Agora é pra valer.

Quantas vezes, nos 20 anos em que trabalhei como repórter ou em outras funções em uma redação, eu voltei pra casa e desabafei: ainda bem que eu não sou um cirurgião, pois hoje eu teria matado um paciente.

Não foram muitas, é verdade. Nem os erros que porventura eu cometi foram graves, muito menos intencionais. Talvez a comparação que fiz antes seja exagerada: foram alguns gols perdidos, ou um frango. No final das contas, fiz muito mais gols e boas defesas, do que falhei.

O que eu quero dizer, é que nós, jornalistas, temos muitas vidas em nossas mãos e o jornalista que não tem consciência disso, põe em risco muito mais do que a própria carreira.

E é neste ponto que eu quero chegar: uma coisa é alcançar esta fase da vida e se decidir por uma carreira; outra coisa é assumir uma profissão. A primeira escolha leva a uma corrida, uma disputa; a segunda leva a um casamento, uma vocação. Numa época de jornalismo show, em que apresentadores e repórteres são tratados como artistas, como estrelas, em que com freqüência submetem-se e esperam tal tratamento, é preciso deixar bem clara esta diferença. Se a referência foi direta ao jornalismo de televisão, não quero dizer que isto não ocorra em outras mídias – infelizmente tem sido uma prática muito comum.

Em um dos raros exemplos de inovação no jornalismo que não leva a um produto superficial ou espetacular, podemos verificar isso muito bem. Não por acaso, o nome do programa é Profissão Repórter. Em uma das histórias contadas esta semana, dois jovens repórteres acompanharam a rotina de uma mãe que trabalhava das quatro da manhã às 11 horas da noite em cinco bicos: vendia café e sanduíches, em uma banca de rua; fazia faxina em duas casas, era cabeleireira e manicure.

A família conseguia, com isso, R$ 2 mil por mês. Tem gente que não se sujeita a um emprego por um salário assim. Mais de 800 reais eram destinados a pagar os estudos da filha. Na formatura, acompanhada pela equipe com sensibilidade, sem ser piegas, houve momentos emocionantes. Em uma cena, que durou menos de um segundo, apareceu num canto do vídeo a repórter enxugando uma lágrima. Posso estar enganado, pode ter sido apenas um momento, ou até mesmo um cisco no olho: mas ali eu vi uma repórter que escolheu a profissão, e não a carreira.

Neste momento, é assim que eu vejo as jornalistas Sarah; Gislayne; Dirlene; Carolina e Camilla. Mesmo que eu não volte a vê-las, é assim que elas ficarão registradas na minha memória, e é para isso que eu torcerei por elas.

Quem escolheu o jornalismo por dinheiro, escolheu errado. Uma minoria torna-se rica e, desses, uma parcela ínfima ficou rica apenas com o jornalismo, o jornalismo honesto.

Quem escolheu o jornalismo por vocação, fica rico de um jeito diferente: não conheço outra profissão que ofereça tanta oportunidade de crescimento pessoal, de experiência e de conhecimento. Dizem que, em média, um repórter consegue usar apenas dez a 20 por cento das informações que recolhe na hora de redigir uma matéria. O repórter não guarda para si o restante por egoísmo, mas por impossibilidade de publicar o todo.

Cada página do seu bloco de anotações que ele não conseguir usar em seu texto, cada depoimento ou situação que ele não conseguir registrar na matéria, mas conseguir guardar na memória, é uma lição que vai ser usada em uma reportagem seguinte, seja amanhã ou daqui a anos.

Como repórter, entrei em casas miseráveis e em palácios – sem exagero. Mas como conheci antes os casebres, não me deslumbrei com o luxo e imponência das recepções oficiais. Pelo contrário, foi com o que aprendi na rua que conquistei a autoridade para cobrar das autoridades, sempre que possível, atitudes que pudessem mudar situações que considerava injustas.

Assim como, ao tornar-me professor eu não deixei de ser jornalista, essas minhas mais novas colegas vão compreender logo que, ao deixarem de ser alunas, não passam a ser jornalistas automaticamente: mesmo com o registro profissional.

Sinto muito informar que esta não foi a última aula de vocês. Mesmo porque não sou o professor para dar uma aula definitiva. Agora vocês começam um curso diferente, com provas reais, um exame a cada dia. Como diz Paulo Henrique Amorim, qualquer um pode aprender em poucos meses a fazer jornalismo, mas aprender a ser jornalista é bem mais difícil: é um aprendizado para uma vida inteira.

Para encerrar, vou citar um outro repórter, este sim uma unanimidade como exemplo de homem que nasceu com uma vocação e casou-se com ela: José Hamilton Ribeiro. Passou dos 70 anos e é repórter há mais de 50. Quando perguntaram para ele, um vencedor de sete Prêmios Esso, qual a reportagem que ele considerava a melhor, Zé Hamilton respondeu: “aquela que eu não fiz ainda, pois se eu considerar que já fiz a minha melhor reportagem, eu teria que parar, pois já teria alcançado o meu máximo. Sempre acho que a próxima vai ser melhor”.

Não sei qual será o destino destas novas jornalistas, nem mesmo sei qual o futuro do jornalismo. Apenas sei que o futuro profissional depende apenas de vocês e não há como separá-lo daquilo que esperam de vocês mesmas, como pessoas. Pensem apenas que vocês tiveram até agora bons momentos como pessoas, alunas e profissionais; mas o melhor de todos vocês ainda têm que perseguir.


Jornalista, mestre em TV Digital e professor das disciplinas de TV

800x600. ©2005 Agência Experimental de Jornalismo/Revi & Secord/Rede Bonja.