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Matéria 4847, publicada em 13/09/2007.


:Eva Croll

Tayse e Marilene simulam processo de revelação

Pinhole: a arte de fotografar sem lentes

Eva Croll


Boas fotografias só podem ser produzidas com bons equipamentos, certo? Errado. Por incrível que pareça, até latas — sim, as mesmas que você encontra armazenando café nas prateleiras do supermercado — podem servir como câmeras fotográficas. Toda essa técnica se resume a um nome: pinhole, a expressão em inglês para “buraco de agulha”.

Foi utilizando as câmeras sem lentes que a turma do segundo semestre de publicidade e propaganda saiu para fotografar o centro de Joinville de um jeito alternativo. Era uma manhã nublada, no dia 10 de agosto, e os acadêmicos que cursam a disciplina de Fotografia 1 já colocavam para funcionar as câmaras escuras confeccionadas na aula anterior. Para a fabricação delas, nada mais foi necessário além de um recipiente lacrado, um furo mínimo e um pedaço de fita isolante. O ingrediente principal, que desenharia a imagem durante o tempo de exposição, viria depois: a luz.

Qualquer compartimento que, tampado, não deixe a luminosidade passar, está aprovado para ser produtor de fotografias pinhole. Isso inclui desde caixas de sapato e latas a caixas de madeira mais elaboradas. Para reforçar a escuridão no interior do recipiente, as paredes e a tampa devem ser pintadas com tinta preto-fosco. O furo deve ser feito na lateral da câmera e tampado por um pedaço de fita isolante, seguindo as proporções do compartimento (uma caixa de sapatos pede um orifício maior do que o de uma lata de leite em pó, por exemplo). Tanta preocupação com as dimensões do buraco não é em vão: a função dele é, nada mais, nada menos, do que a da lente objetiva de uma máquina fotográfica comum. Ou seja, a regulação focal.

Montada a câmera, é hora de posicionar o papel fotográfico, que não deve ser exposto à luminosidade por ser sensível à luz. Para executar tal procedimento, o local ideal seria um quarto escuro iluminado apenas por uma lâmpada vermelha. Estando pronta para registrar as imagens, é a hora da exposição. Álvaro Diaz, professor de Fotografia 1 e 2 do curso de Comunicação Social do Bom Jesus/Ielusc, explica que o tamanho dos furos é inversamente proporcional à quantidade de luz que deve ter entrada permitida, isto é, quanto maior o furo, menor o tempo de exposição. Para permitir a entrada da claridade, basta retirar a fita isolante que cobre o orifício.

O nível de luminosidade é que influencia o período de exposição. Enquanto, em algumas situações, bastam três segundos para que a imagem se desenhe na superfície do papel, há vezes em que o fotógrafo tem que esperar mais de uma hora para a obtenção de uma foto. Isso acontece, normalmente, à noite. Veja, abaixo, duas imagens obtidas com câmera pinhole (lata), retiradas do site www.eba.ufmg.br.

Tempo de exposição: 10 minutos

Tempo de exposição: 1 hora e 10 minutos

Sem dúvida, o experimento é simples, mas exige muito mais do que um simples clique. A turma de publicidade produziu uma média de três imagens por dupla. Marilene Tonolli e Tayse Uber, parceiras no experimento, contam que, primeiramente, produziram a foto “de teste”, a qual define se o tempo de exposição da câmera deve ser maior ou menor. As fotos artesanais foram reveladas pelos próprios alunos no laboratório de fotografia. Já que latas e caixas não têm visor, os elementos que sairão estampados no papel fotográfico sempre formam imagens inesperadas. O processo da revelação inclui cinco etapas: o banho nas soluções reveladora (1 minuto), interruptora (30 segundos, ou “uma lambida”, segundo o professor Álvaro) e fixadora (1 minuto); o mergulho em água corrente, por 2 minutos; e a secagem, que pode ter as fotografias penduradas em varais, como roupas, ou simplesmente dispostas na mesa. Fotografias, nesse momento, é só modo de falar: a ilustração que apareceu na superfície do papel fotográfico é, ainda, o negativo. Para obter-se o "positivo", isto é, a foto com cores e posições corretas, é utilizado um ampliador e um novo papel fotossensível.

Confira, abaixo, algumas das imagens produzidas na saída de campo pelos alunos.

O termo pinhole foi pronunciado pela primeira vez em 1856 por David Brewster, cientista inglês fascinado pela luz e seu comportamento. Tendo estudado a fundo o fenômeno da fotografia (“descoberta” em 1825 pelo francês Joseph Niépce), constatou que as imagens podiam ser “congeladas” pela passagem da luz por um buraco circular com menos de um milímetro de diâmetro. A técnica, entretanto, já era conhecida e utilizada na Grécia Antiga pelo filósofo Aristóteles, que, apesar de não fotografar, observava eclipses e outros movimentos estrelares de dentro de uma câmara escura.

O gênio de talentos múltiplos, Leonardo da Vinci, também utilizava o artifício como auxílio na pintura. Como ainda não havia sido descoberto o meio químico para se registrar imagens óticas, os artistas costumavam reforçar os traços da projeção sobre uma espécie de cartolina semi-transparente.

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