Revi Bom Jesus/Ielusc

>>  Joinville - Quinta-feira, 02 de dezembro de 2021 - 21h12min   <<


chamadas

Matéria 4791, publicada em 03/09/2007.


:Eberson Theodoro

Israel Brandão: prevenção é o melhor caminho

Educação, a melhor forma de promover a saúde

Melanie Peter


No dia 30 de agosto, o professor e doutor em Psicologia, Israel Brandão, esteve no anfiteatro do Ielusc e conversou com professores e futuros profissionais de Nutrição e Enfermagem sobre as aproximações entre a saúde coletiva e a educação. Ele é um dos coordenadores da Escola de Formação em Saúde da Família Visconde de Sabóia e viaja pelos diversos cantos do Brasil para mostrar com orgulho o resultado de um sonho tornado realidade por várias mãos. 

Em meio ao árido sertão nordestino, mais precisamente na cidadezinha de Sobral, no Ceará, uma iniciativa se ergueu contra o modelo hospitalocêntrico adotado pela medicina ocidental. Renovar mentes e corações em prol da organização de um sistema vivo, capaz de promover saúde e não somente prevenir e curar doenças são os principais objetivos da escola.

O modelo pedagógico utilizado se baseia na participação, no diálogo e na problematização da realidade vivenciada pelos educandos. O projeto é uma parceria entre a Universidade Vale do Acaraú, o Governo do Estado do Ceará e a Secretaria de Saúde e Assistência Social. O principal desafio foi aplicar a filosofia do educador Paulo Freire a partir de um curso de pós-graduação em Saúde da Família.

Eram mais ou menos 14h30 e, no anfiteatro, quase 70 olhares voltavam-se atentos na direção do telão que exibia um vídeo produzido pelos próprios alunos da pós-graduação. Profissionais formados em várias áreas, entre elas, terapia ocupacional, assistência social, enfermagem e nutrição, davam depoimentos a favor de uma concepção abrangente, não mais centrada na doença e sim no paradigma da promoção da saúde. Segundo Israel, a inter e a transdisciplinariedade são muito importantes para o sucesso da escola.

A palavra-chave em todo o discurso do professor foi educação popular. Israel explica que o conceito se refere a uma educação libertadora, na qual a hierarquização é deixada de lado e a aprendizagem acontece com base no diálogo e no afeto.

No caso da pós-graduação em saúde da família, 80% das atividades de ensino e treinamento ocorrem nas unidades e serviços da rede assistencial pública ou conveniada ao SUS. A educação permanente transforma o espaço, originalmente apenas um local de assistência, em um ambiente também de construção de saberes e práticas. Quem aprende não são apenas os educandos, mas toda a equipe de saúde. Nesse sentido, formam-se profissionais capazes de perceber as deficiências no processo de trabalho e de estimular um diálogo entre os diversos atores envolvidos.

O sorriso escancarado, a fala mansa e o agradável jeito de ser denotam claramente que Israel encara o “ser” humano de maneira transcendente. Voltando sempre à questão das relações humanas, ele comenta que utilizar a educação popular na saúde significa construir um modelo de medicina mais articulado com a sociedade, deixar de ver o corpo humano como uma máquina, cuja saúde é o funcionamento perfeito e a doença uma avaria que cabe ao médico consertar.

“Não é o médico ou a enfermeira, todos nós somos responsáveis”, declarou firmemente para a platéia que continuava atenta quase 3 horas depois do início da palestra. A pobreza e a cultura influenciam e interagem fortemente com a saúde pública. Melhorias significativas dependem de uma articulação conjunta entre diversos setores da sociedade, inclusive com os profissionais de comunicação social que, para Israel, podem contribuir imensamente para a promoção da saúde.

Depois de criticar ferozmente a educação pelo medo, ele retoma a questão da afetividade nas relações interpessoais, principalmente nos ambientes de aprendizado. Durante toda a história da humanidade, o afeto foi ignorado ou deixado de lado, principalmente com o advento do helenismo e do pensamento judaico-cristão. 

A maioria dos presentes na platéia ainda se interrogava em silêncio sobre como estaria afetando os outros quando, como um bom leitor do teórico Theodor Adorno, Israel criticou enfaticamente a atual coisificação da vida, o modo de viver automatizado da sociedade pragmática e o sistema perverso no interior do qual o “outro”, muitas vezes, acaba sendo entendido como alguém que atrapalha e não como alguém com quem podemos construir junto.

Com a fala doce e penetrante, o paulofreireano confesso tentou levar cada par de olhos presentes para além da futilidade, sujeitando-os a ir até o mais profundo de si mesmo em busca de respostas para as perguntas deixadas no ar. Quanto vale a nossa vida? De onde vem essa incontrolável necessidade de “ter”? Por que nossas ações parecem contar cada vez menos?

No último slide da apresentação brilhavam as frases:

“Ninguém pode ser, autenticamente, proibindo que os outros sejam” (Paulo Freire)

"Só as pessoas livres são gratas umas às outras e estão ligadas por fortes laços de amizade. As servis ligam-se por recompensa e medo” (Espinosa)

Antes de encerrar a conversa, o palestrante convidou todos a participar de uma ciranda. O relógio marcava aproximadamente 17h e, em meio ao grande círculo, Amanda Rosa Vailatti, aluna do sexto período de enfermagem, ouvia atenta as instruções e, com os olhos brilhantes, comentava, de mãos dadas com a amiga, num misto de euforia e satisfação: “Eu quero ir para Sobral”.


800x600. ©2005 Agência Experimental de Jornalismo/Revi & Secord/Rede Bonja.