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Matéria 4711, publicada em 17/08/2007.


:Jouber Castro

Rosana diante dos avaliadores

Por um Chico Buarque fora do olhar da crítica

Lorena Trindade


Uma moça diferente para muitos. Rosana Rosar estava lá, sentada diante da mesa quadrada. As 180 cadeiras do anfiteatro iam sendo ocupadas aos poucos. Ela dava algumas olhadelas para o movimento do auditório, mas preferia ler o que tinha em mãos. Se preparava sem se levantar e sem fazer alarde.

Luiz Felipe Soares, orientador de Rosana, deu as boas-vindas ao público e agradeceu aos avaliadores por terem aceito o convite. Samuel Lima, o Samuca, e Emílio Pagotto, professor da UFSC e músico, sentaram-se para continuar conhecendo “Chico Buarque: a ambivalência que não se vê”.

Não durou mais que dez minutos. Rosana leu a paixão pelo compositor e a decepção às críticas feitas a ele ao longo da carreira. Tentou desmistificar as múltiplas facetas de Chico e provar que as críticas são repetitivas e sem profundidade. “O autor é classificado como amante, cronista, malandro, político e trovador... como se fosse possível que o Chico amante não interferisse no Chico cronista, este não interferisse no Chico malandro e assim por diante”, escreveu a acadêmica num trecho das quatro páginas lidas na apresentação.

Rosana focou sua pesquisa na série de DVDs produzidos pela DirecTV e pele Rede Bandeirantes de Televisão. São quatro caixas e cada uma contém três DVDs, que mostram a vida e a obra do compositor. Segundo ela, “um exagero”. Os 12 discos têm quase 24 horas de duração. Com base nos autores Jacques Derrida, Roland Barthes e as feministas Laura Mulvey e Judith Butler, a autora analisou a produção dos DVDs e a figura de Chico conhecedor da alma feminina e encontrou ambivalência. Rosana disse ter corrido o risco de soar “pedante e arrogante”.

“O seu trabalho é superbem escrito”, disse Pagotto ao iniciar a argüição. O avaliador considerou a análise dos DVDs “uma boa sacada” e disse que a pesquisa é, em alguns momentos, densa. As advertências vieram em forma de sugestão. Pagotto afirmou que Rosana passou muito rápido por todos os temas e com isso o conteúdo do texto acabou tornando-se fraco. Ele sugeriu que a continuidade do trabalho ocorra de maneira menos radical e chamou a atenção da acadêmica para a força da expressão “lata de lixo”, usada por ela para indicar o lugar ao qual as críticas feitas a Chico deveriam ser jogadas. “Você tem que tomar cuidado com o extremismo e com as alfinetadas”, completou o professor.

Samuca disse ter se sentido duplamente desafiado, principalmente por gostar de Chico Buarque. Ele afirmou que a escolha dos DVDs não foi feliz, e completou: “Talvez se você tivesse analisado 15 músicas do Chico, fosse melhor”. Elogiou a resenha feita sobre a obra “A farmácia de Platão”, do filósofo Derrida. Samuca concluiu dizendo que as feministas citadas no trabalho não contribuíram em nada e sugeriu que, se Rosana der continuidade à pesquisa, analise os 15 universos femininos enumerados por ela na monografia.

O orientador abriu espaço para as questões do público e a acadêmica as respondeu. A timidez de Rosana era visível e as perguntas pareciam deixar-lhe nervosa. “Não me sinto bem com perguntas e platéia”, afirmou mais tarde. Disse ter se sentido “açoitada”, mas pretende rever o texto para analisar as críticas feitas pelos avaliadores. Quanto ao material para pesquisa, confessa que não teria conseguido adquirir sem o apoio da biblioteca da instituição. A série de DVDs custa, aproximadamente, R$ 600,00. “Nos agradecimentos, citei a biblioteca”. Chico é, para Rosana, músico, poeta e escritor. “Chico é um artista”. A nota 8,8 e a paixão pela música motivam Rosana a dar continuidade a sua construção.

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