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Matéria 4470, publicada em 18/06/2007.


:Lorena Trindade

Carlitos no escritório com os troféus ao fundo

Ah, se eu tivesse oitenta anos

Clayton Felipe


Nada como o bom e velho período octogenário para ganhar medalhas nos campeonatos de natação master (acima de 60 anos). Pelo menos, Carlos Henrique Baasch, 80 anos, bancário aposentado, agrega uma “medalhinha” em todo o campeonato que participa. Entre eles: brasileiro, estadual, mercosul, sul-americano, circuito Banco do Brasil.

Este senhor, pai de dois filhos e avô de três netos, mora em Joinville, nada pela equipe Master (nome da equipe) da academia The Best e conquista ótimos resultados para o esporte da cidade. Ele surpreende pela regularidade dos resultados – surpreendentes também. Segundo o técnico Thiago Rodrigues, ele traz em média três medalhas de ouro de cada etapa do Brasileiro, "o campeonato mais importante".

Carlos conta os principais resultados: "Nos anos de 2006 e 2007, no circuito catarinense, que é organizado por uma academia de natação de Florianópolis, das quinze provas das quais participei, ganhei catorze medalhas de ouro e uma de prata. No circuito brasileiro, no mesmo período, participei de dezessete provas, tendo conseguido oito medalhas de ouro, três de prata, três de bronze, um quarto e um quinto lugares. Participei, em 2002, de um campeonato sul-americano, quando obtive uma medalha de ouro, uma de prata e duas de bronze".

Natural de Palhoça, Carlitos – apelido dado pelos amigos –, passou no concurso do Banco do Brasil quando tinha 29 anos (1956) e foi trabalhar em Xanxerê, oeste de Santa Catarina. Antes disso, ele tinha um escritório de contabilidade e uma pequena tipografia. Em 1960 foi transferido para Joinville onde ficou por 20 anos. Na década de 80 foi morar na capital federal e ficou até se aposentar em 1988, quando começou a nadar, aos 61 anos. De lá, não parou e nem pensa em parar de nadar. Seu Carlitos voltou a morar Joinville em 1988 para fazer um tratamento de saúde em Curitiba.

Natação

Não tem para ninguém na natação master catarinense. Nos campeonatos estaduais, Carlitos compete sozinho na categoria 80 a 84 anos, e por isso brinca: “É porque eu já passei da 3ª idade. Já estou na 4ª faz tempo”. Carlitos é o destaque da equipe Master da academia The Best, composta por seis atletas. Na última competição a equipe trouxe seis medalhas, sendo cinco do octogenário nadador (duas de ouro e três de prata) e uma medalha de bronze da nadadora Irene.

Ele explica que um dos motivos para sempre conseguir uma vitória deve-se ao nado estilo borboleta. Segundo Carlitos, outros nadadores da mesma categoria já não nadam o estilo, que é o mais difícil. Porém, ele nunca nada sozinho numa série. Na mesma sempre há outros nadadores participando de outras categorias.

De acordo com o técnico Thiago, a preparação que a equipe Master faz é para o campeonato estadual, dividido em quatro etapas. Para Carlos, o campeonato mais difícil e maior é o brasileiro, realizados em duas etapas, em março e setembro. Nesse campeonato acontecem as melhores disputas e é onde Carlitos conquista as medalhas mais importantes. “No brasileiro há outros bons competidores da minha categoria”. E ressalta: “Mas é tudo entre amigos”.

Além da preparação para o brasileiro e estadual, Carlitos participa dos campeonatos sul-americanos quando acontecem no Brasil. “Ele poderia ir para os campeonatos no exterior, mas opta por não ir”, explica o técnico referindo-se às marcas que habilitam o nadador para participar dos campeonatos.

Carlitos ainda disputa o circuito Banco do Brasil. “Eu encontro muitos amigos”. Para esse campeonato, porém, ele próprio faz a preparação (confere as datas, faz as inscrições), pois a equipe da academia se dedica apenas para o estadual e brasileiro.

Fã de Gustavo Borges, Carlitos exibe orgulhoso a foto com o ídolo na prateleira de casa (junto com inúmeras medalhas e troféus). Ele conta que conheceu o famoso nadador em Curitiba, quando a filha estava organizando um evento com a participação do atleta. Naquele dia, a filha pediu o carro emprestado, e quando Carlitos foi entregá-lo, encontrou o nadador e tirou uma foto com ele. “Olha o 'tamanhão' dele perto de mim”, aponta a diferença de altura de aproximadamente 30 cm na foto. Descontraído, ele conta que tinha 1,85 m, mas agora está com 1,82. “Por causa da idade a gente diminui um pouco”.

A aposta de Carlitos é que no Pan-americano a natação apareça bastante e se desenvolva. Ele cita o exemplo de Guga, que ao ganhar grandes torneios, provocou um grande interesse na prática do tênis no Brasil. “Toda criança queria jogar tênis”. Ele confia que os novos nadadores, Tiago Pereira, Caio Márcio e Joana Maranhão conquistarão medalhas no pan.

Rotina

Para conseguir todos esses bons resultados, Carlos Baasch acorda cedo. Treina todos os dias às 7 horas. Natação às segundas, quartas e sextas-feiras, e musculação nas terças e quintas-feiras. Além de boa alimentação, Carlitos mantém uma rotina bastante movimentada. Um dos passatempos é dançar com a esposa Vada. A fiel companheira está casada com o nadador há 55 anos, dos seus 74 vividos.

Carlitos tambén é chegado numa “sinuquinha”. Joga com os amigos na AABB (Associação Atlética Banco do Brasil) todas as semanas. Por falar nisso, o Banco do Brasil é um dos cenários principais dos contextos de seu Carlos. Ele disputa várias etapas do campeonato de masters promovido pelo banco em todo o Brasil. Aqui em Joinville, ele sempre vai a jantares e festas na associação. Alguns de seus amigos são ex-funcionários do banco e quatro deles moram no mesmo prédio.

Atleta e artista, Carlitos toca violão. Todas às quartas-feiras o amigo Chico Macedo o visita para tocar algumas músicas no apartamento no centro da cidade. “Eu gosto de MPB, mas não toco mais", diz. "As mãos tremem muito por causa de idade e a voz já não é mais a mesma”. E relembra algumas músicas italianas e espanholas enquanto mostra as partituras de Zeca Pagodinho, Zezé de Camargo e Luciano, Carlos Gardel que ficam num pedestal ao lado do violão.

A internet é algo que faz parte do dia-a-dia do nadador. Assim que se aposentou, comprou um computador. Ele conta que uma empresa sempre o assessora quando acontece algum problema com a máquina e, geralmente, pede para os jovens técnicos terem calma. “Eles são muito rápidos. São meio doidos”, revela, achando graça.

“Só facilita a vida”, diz Carlitos se rendendo à tecnologia. Ele faz transações bancárias via internet, busca informações de diversas partes, lê os e-mails e, principalmente, conversa com os netos que moram no exterior pelo programa de mensagem instantânea e pela webcam.

 

O nadador Carlitos não dá os sinais de cansaço comuns à maioria das pessoas da sua idade. A voz denuncia os 80 anos, porém a postura, o caminhar e os resultados mostram quanta energia ele tem. Às vezes, ele deixa de competir em algum campeonato para participar de um compromisso social - por exemplo, não vai à próxima competição para ir a uma festa de bodas de ouro. E, eventualmente, falta aos treinamentos por causa de um resfriado ou tratamento de saúde.

Contudo, no que depender de Carlos Baasch, muitas medalhas ainda estão por vir. Ele conta que nos campeonatos master há pessoas mais idosas, e cita casos como o de Maria Lenk, pioneira da natação brasileira e que morreu no começo desse ano, com 92 anos. "Ela andava bem devagar, mas quando caia na água, nadava como um peixe". Os resultados mostram que Carlitos também nada como um peixe. Que seja assim por muito tempo.

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