Revi Bom Jesus/Ielusc

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Matéria 3885, publicada em 19/03/2007.


:Eva Croll

Lena falou sobre cursos e concursos

Entrevista com Lena Souza, campeã mundial de Oratória

Jouber Castro


Revi – Como foi a sua aproximação com a JCI? Você mesma quis participar ou foi convidada?

Lena – Foi em 2003. Eu fui convidada pro amigos que tinha dentro da JCI, e comecei a me desenvolver com os trabalhos de liderança e participar das reuniões. Depois de uns quatro meses fiquei sabendo do concurso local de oratória. Meus amigos me perguntaram: “E aí, Lena, vai participar?”. Eu respondi: “Não, tá louco, eu sou super travada!”. Mas uma das minhas amigas me disse que eu deveria participar só pra ver como era. Eu fiz meu discurso, estudei e ensaiei bastante na frente do espelho. E como eu fui professora de dança gaúcha durante 8 anos, já havia perdido o medo de gente. Estava acostumada com todos me olhando. E com a dança eu também aprendi alguns macetes, como disfarçar os erros, sorrir o tempo todo pra esconder o nervosismo. No dia do concurso, eu sorri bastante. Todos acharam que eu estava muito leve e que era muito simpática. E deu certo. Acabei vencendo.

Revi – E daí para a frente, como foi a seqüência dos demais concursos?

Lena – Nas outras etapas eu vi que precisava me aperfeiçoar. Fiz muitos cursos de oratória, inclusive o do Clube da Oratória, aqui em Joinville. Procurei professores, e ganhei também a etapa regional em Maravilha. Cada concurso faz parte da programação do Congresso da JCI. Então, no congresso nacional, realizado em Rio do Sul, eu também conquistei o concurso, que me habilitou para participar da etapa continental.

Revi – Como funciona o concurso? Vence quem falar mais sobre qualquer assunto?

Lena – O concorrente fala durante sete minutos. O tema é escolhido pela organização. O concorrente mesmo pesquisa sobre o tema por cerca de dois meses, que é o intervalo entre as fases, e quem mais emocionar, transmitir melhor a sua mensagem, trabalhar um discurso inteligente e interativo, e for escolhido pelos três jurados, vai à próxima etapa. Cada uma delas tem apenas um vencedor. Os assuntos são os mais variados: já tivemos “Responsabilidade Social”, “Liderar com Paixão” e “Marketing, Mídia e Sustentabilidade”, por exemplo.

Revi – A passagem da etapa nacional para a continental foi a que teve a maior diferença de amplitude. Você sentiu mais dificuldade?

Lena – Com certeza. Na etapa continental existe uma grande diferença: o idioma. Pra mim era muito mais difícil, porque as únicas opções eram inglês ou espanhol. O pessoal dos outros países falava no seu próprio idioma, e eu acabei tendo mais dificuldade. Tive dois professores de espanhol, tinha aulas duas vezes por semana, fora o curso de Programação Neuro-Lingüística que eu fiz. Foi nessa época que houve a maior mudança. Trabalhava há 12 anos numa empresa, e fui obrigada a mudar de emprego porque eles não me apoiaram. Também tive de interromper a faculdade pra me dedicar integralmente ao concurso. Na etapa continental eu disputei com 13 países, e sabia que tinha a desvantagem do idioma. Mas eu sempre soube que não poderia ser igual a todo mundo. Eu tinha de ter um diferencial. E esse diferencial foi a emoção. Eu queria que as pessoas pensassem no que eu falava, e saíssem dali refletindo. Acabei vencendo e me classificando para a etapa mundial.

Revi – E na Áustria, como foi o concurso?

Lena – O congresso mundial da JCI em 2005 foi em outubro. No dia do concurso, aproximadamente 8 mil pessoas estavam no auditório. Algumas pessoas me perguntam se na hora que eu estava falando não vinha um flash, lembrando tudo que eu passei, todo o meu esforço. Mas eu me condiciono a pensar em tudo isso antes de entrar. Na época do concurso eu descobri que tinha diabetes, e a minha glicemia naquele dia estava acima de 300. Mas no momento de falar só pode haver concentração. E comigo aconteceu algo diferente. Mais ou menos no meio do discurso, o meu microfone falhou. Os jurados do concurso são muito rigorosos, e quem passa um segundo que seja do tempo de sete minutos é eliminado. Eu pensei que não tinha tempo para esperar o técnico trocar meu microfone. Botei ele de lado, vim até a ponta do palco e continuei no gogó. Essa coisa de improviso do brasileiro me ajudou muito. Nunca tinha acontecido isso. Imagina, na Europa... Tudo funcionando direitinho, a acústica do ambiente era excelente. O que mais pesava pra mim é que não era a Lena falando. Eles iriam chamar para falar uma brasileira. Foi isso que me manteve motivada.

Revi – A comemoração deve ter sido grande, não é?

Lena – Grande mesmo foi a expectativa. Depois que os concorrentes de todos os continentes falam, eles recebem uma placa pela participação e os jurados se recolhem. O resultado só vai sair no outro dia. Na cerimônia de premiação o resultado do concurso de oratória é um dos mais esperados. E existia toda aquela classe européia, as delegações de todos os países tinham bandeirinhas, e eles balançavam a cada anúncio. Os vinte brasileiros tinham umas bandeiras de plástico, e na hora que foi anunciado “Lena Souza”, foi igual pipoca. O auditório virou um carnaval. Todos os brasileiros pulavam, gritavam pelos corredores. Eu peguei no braço de um rapaz da delegação e falei: “Você vai comigo!”. Atravessei o tapete vermelho correndo e pulando. Quando cheguei no palco, ao invés de agradecer, a primeira coisa que eu fiz foi tomar o troféu da mão do presidente mundial da JCI, e levantar bem alto e gritar: “É nosso!”. A emoção foi muito grande.

Lena ergue o troféu de campeã mundial

Revi – E como você usa essa experiência nos cursos que você ministra?

Lena – Eu acho que trabalho vem antes de talento. Segundo algumas pesquisas, apenas 7% da população nasce, como se diz, “para o palco”. Também há o lema: “Poetas nascem, oradores se fazem”. Eu mostro nos meus cursos a minha trajetória, como eu trabalhei parta conseguir alcançar o meu objetivo. Falo também da necessidade de autoconfiança, de como é necessário que a auto-estima esteja em dia. A ansiedade é o primeiro fator que dificulta a fala em público. O medo de errar bloqueia, e muitas vezes causa os famosos “brancos”. Eu também procuro trabalhar traumas. Tem gente que prefere morrer a falar. E se fosse só falar, tudo bem. Mas além de falar bem, tem de ter conteúdo, tem de ter conhecimento por trás das palavras. E a habilidade de lidar com isso enquanto fala só vem com a prática. Em 15 horas de curso ninguém perde o medo de falar em público. O que eu ensino são algumas técnicas para trabalhar essa ansiedade. Eu gosto mesmo é de ajudar as pessoas. Já ministrei cursos no Iesville, no Senac, no Bom Jesus/Ielusc, sempre falando de como falar bem usando a minha experiência.

Revi – E atualmente, fora os cursos, você ainda participa de concursos?

Lena – Não. Eu agora estou me dedicando mesmo ao programa de televisão, o Chão Farrapo, que eu apresento desde 2005, que mostra, além das tradições gaúchas, um resgate da cultura. Também tenho vontade de escrever um livro pra contar a minha experiência. Mas não um livro de auto-ajuda, um livro de oratória mesmo. Pra isso, comecei e faculdade de jornalismo e estou gostando muito da função. Atualmente, esses são os meus desafios.


Colaboração: Professor Sílvio Melatti

800x600. ©2005 Agência Experimental de Jornalismo/Revi & Secord/Rede Bonja.