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Matéria 2997, publicada em 18/10/2006.


:Eva Croll

Sílvio Melatti apresenta obras de Joel Silveira

Sílvio Melatti falou sobre Joel Silveira na semana da comunicação

Letícia Caroline e Roelton Maciel


A noite da víbora durou quase três horas. E poderia ter ido além. Munido com uma pilha de livros e datashow, o professor Sílvio Melatti carregava no microfone a responsabilidade de apresentar Joel Silveira aos 90 alunos que compareceram. Poucos na platéia conheciam o pioneiro do novo jornalismo no Brasil. Para a maioria, o primeiro contato só ocorreu sob as palavras da convidada Salete Lópes, que deu voz a Joel quando leu a reportagem “A Milésima Segunda Noite na Avenida Paulista”.

Não era uma aula comum. A sala C27 tornou-se palco de divagações. Melatti expôs as narrativas extensas e detalhadas do autor para surpreender. Um momento inteiramente dedicado à contemplação de textos cada vez mais raros no jornalismo moderno. Foi também a chance de professor e acadêmicos lamentarem a pretensa objetividade que assombra os jornalistas.

A figura de Joel Silveira despertava interesse naturalmente. Impossível não se impressionar com o homem que entrevistou o presidente. E este, que esteve frente a frente com Getúlio Vargas, parecia tão atrativo quanto o jovem correspondente de guerra. Impossível também foi segurar o riso ao ver “a víbora” no vídeo, contando justamente sua experiência na Segunda Guerra Mundial. O sotaque sergipano arrastado reproduzindo as recomendações de Assis Chateaubriand: “Só me faça um favor, não me morra! Repórter é para mandar notícias, não para morrer”.

Entre trechos lidos, fofocas do autor, a obra de Joel também foi comparada a de outros jornalistas. Mas era sempre ele, o terrível sobrepondo-se aos outros autores. Com o estilo “maciamente perfurante”, nas palavras de Manuel Bandeira, o jornalista de 88 anos conseguiu fazer reportagem sem ir ao evento, conseguiu construir matéria sem entrevistar a fonte. Enfim, conseguiu revolucionar a imprensa brasileira, muito antes do termo “jornalismo literário” nascer.

E no bate-papo descontraído a noite passou rápido, com promessas de uma segunda parte para discutir mais a obra da estrela da noite. Quando a explanação do professor terminou e iniciaram as perguntas, a questão que perpassava o debate era: hoje é possível escrever que nem a víbora? O próprio autor não se dava conta que praticava o jornalismo literário. Mas quem participou da palestra de terça-feira, 18 de outubro, deve ter saído com empolgação e vontade de abolir os “como, onde e porquês” do jornalismo factual.

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