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Matéria 2237, publicada em 05/06/2006.


"Quem faz a ética são os homens"

concedida a Erivellto Amaranth

Depois de três semanas consecutivas comparecendo ao gabinete da vereadora Tânia Eberhardt (PMDB), tendo de preencher um cadastro — que começa com dados pessoais (como endereço e telefone) e termina com informações sobre a renda familiar —, os assessores da vereadora finalmente encontraram um espaço em sua agenda para atender a equipe da Revi.

Ela é um dos poucos membros do legislativo municipal que nasceu em Joinville — em 1952. Hoje, é casada e mãe de um filho. Tânia é servidora pública desde 1972, quando começou a trabalhar como educadora na Fundamas. De lá para cá, passou pela Secretaria do Bem Estar Social, entre 1974 e 1993; coordenou diversos CERIs (Centros de Educação e Recreação Infantil); e foi secretária do Desenvolvimento Comunitário, em 1994. No final da década de 1990, deixou a educação para trabalhar na Secretaria da Saúde e, em 2004, foi nomeada diretora do Hospital Municipal São José. Tânia foi eleita a terceira vereadora mais votada desta legislatura.

Na entrevista concedida à Revi, Tânia explica porque não votou no caso envolvendo Lauro Kalfels, e coloca sua posição sobre o episódio: “Não me pareceu um ato de má fé. Ele foi ingênuo, para não dizer burro”. Contestada sobre o nepotismo, ela explica que quando foi eleita contratou seu sobrinho como office-boy, com o menor salário do gabinete, mas acabou o exonerando após a votação do projeto do nepotismo, na qual votou contra. Sua ambição política futura é a Assembléia Legislativa de Santa Catarina. Ela já é pré-candidata pelo PMDB a deputada estadual.

 

O caso envolvendo o vereador Lauro Kalfels. A senhora votou a favor ou contra?

Tânia: Eu não votei, eu não estava na casa. Ou melhor, eu estava na casa, mas como foi uma reunião que se estendeu muito, eu tive compromissos assumidos e me ausentei. Nunca precisei fugir dos meus compromissos e das minhas verdades. Bem pelo contrário, sempre paguei um preço alto por estar falando a verdade e emitir meus pareceres. A questão do Lauro era assim, se analisar todo um contexto, toda a citação, no meu modo de entender, e naquela oportunidade, eu falava pras pessoas que eu entendia aquilo como um ato de inocência. Não me pareceu um ato de má fé. Ele foi ingênuo, pra não dizer burro. Não dá pra acreditar que uma pessoa se submeta a fazer uma coisa de má fé com um valor tão pequeno. Mas fez errado, não deveria ter feito e acho que ele já está pagando o preço por isso, e tomara que tenha aprendido.

Na audiência pública todos os vereadores presentes defenderam a ética, e no dia seguinte votaram contra, ou não votaram. Existem outras situações aqui na casa?

Tânia: Existe não só aqui nessa casa mas no país. É assim mesmo, mas lamentavelmente, hoje a classe política paga um preço alto, tem um descrédito pela sociedade por conta disso. O que a gente enxerga? Nós ouvimos o governo prometendo durante anos. Prometerem que o salário seria R$ 700 reais. Hoje somos governo e o salário mínimo está longe de ser isso. Existe uma dicotomia muito grande entre o discurso, os palanques e a realidade. Eu costumo dizer assim, no meu, no teu, no vosso e no nosso partido. Não tem um partido perfeito, não tem aquele que cumpriu integralmente o que prometeu. E hoje fica até mais nítido e claro, em que praticamente todos os partidos já foram governo. Então isso existe, é lamentável, mas como eu disse, o que é importante é ser todas as noites os partidos e poderes. Não só quando acontece um fato específico. Porque quando a casa está cheia você se obriga a cuidar um pouco mais, porque tem gente olhando e cobrando. Mas na maioria das vezes ficam apenas os assessores. Então precisa mudar, e ainda acontece em grande escala em todo o meio político. Veja bem, eu fiz uma audiência pública sobre famílias de apoio. Eu trouxe o juiz da guarda da infância. Casa lotada. Todo mundo elogiou o projeto.

Qual a contribuição mais significativa você acredita ter feito para a comunidade como vereadora?

Tânia: Estou sempre de portas abertas para a comunidade. Estou sempre presente. Defendo as grandes causas. Votei pelo fim das férias de julho dos vereadores, pelo fim do pagamento na reunião extraordinária, e contra o nepotismo. E são as coisas que posso te dizer que foram fundamentais. Estou aqui sempre na defesa de grandes projetos. Não uso a tribuna desnecessariamente, para ocupar espaço. Não uso demagogia, faço o que a consciência manda e falo a verdade. Já mostrei que sou uma vereadora da base governista. Mas em muitas oportunidades votei contra. Mas, foi assim que agi durante 33 anos como servidora pública e continuo agindo da mesma forma.

Algum projeto aprovado em especial?

Tânia: Vários foram protocolados, outros aprovados, outros não. Na área da saúde, foram desenvolvidos grandes projetos da saúde do trabalhador. Criação da lei 270/05, sancionada pelo prefeito através da lei 5370/05, que traz para o centro de referência de saúde do trabalhador, consultas brancas. Todos os serviços públicos tinham as consultas brancas, menos o serviço da saúde do trabalhador. Então, ele servia como setor punitivo e a sociedade o via com antipatia. Mas ele não era consultado antes das empresas abrirem. Tinha uma certa incoerência, então criamos um projeto de lei para que ele também emitisse as consultas brancas. Hoje isso já é lei. Nós estamos tramitando também um projeto de lei número 249/05, que dispõe sobre a proibição do processo de beneficiamento a seco, de mármores e granitos. Um projeto está tramitando em dias de ser aprovado. O foco do nosso trabalho tem sido a área da saúde e a área da educação, cultura e social.

O que a senhora acha de conviver com um detento? Não afeta a imagem da casa? Qual sua opinião sobre o caso Marcucci?

Tânia: É complicado. A legislação permite que ele esteja aqui e nós estamos fazendo o que ela determina. O Marcucci tem feito bons trabalhos e boas discussões na casa. Lamentavelmente, tem o ocorrido na vida pessoal dele. Entendo as dúvidas, são perguntas que recebemos todos os dias. Mas acho que a casa não recebeu uma determinação de que fosse o contrário. Ele teve um problema na sua vida pessoal, mas o desempenho na câmara tem sido bom. A iniciativa não é minha, para isso a Câmara tem uma direção.

Então a senhora não vê nenhum problema de ele estar aqui?

Tânia: É complicado. Porque você vai ver problema, tem que mudar a legislação. É uma coisa complicada, admito que é uma coisa complicada. Mas tem tantas outras coisas complicadas nesse país. Pessoas, supostas irregularidades, muito maiores do que o Marcucci. Tantos casos, que você já sabe, que as CPIs tem mostrado e continuam lá. Pouquíssimos foram cassados.

Qual a sua opinião sobre o regimento interno da casa? Ele deveria ser mudado?

Tânia: Comissão de ética nós não temos. No congresso nacional tem um código de ética e quem faz a ética são os homens. Todos os partidos políticos têm nos seus planos e princípios, os códigos de ética. Porque as coisas são do jeito que são, o que será que está faltando? Muita irregularidade está acontecendo e as pessoas ainda não foram punidas. Se as pessoas forem incoerentes a esse código de ética, se não existir pessoas para cobrar isso, continua a mesma coisa. Concorda? Isso você viu aqui bem próximo no caso do Lauro e do Mariano. E você acha que seria muito diferente se tivesse um código de ética? Não sei, eu também não sei. Depende da índole de cada pessoa, do senso de justiça de cada um.
Não tem papel que te garanta se o órgão não tiver boa vontade.

Qual a sua opinião sobre a saúde no município?

Tânia: A saúde é sempre um problema. Eu costumo dizer que é o patinho feio do serviço público, e todos nós devemos um pouco. A união deixa de cumprir, o estado deixa de cumprir, e o município deixa de cumprir com algumas responsabilidades. Mas ainda tem coisas a fazer. Todos devem um pouco, até a população que não cuida da sua própria saúde. Nos últimos dias, vimos que está complicado. Durante cinco anos eu cumpri a lei: administrar e gerenciar o setor de saúde de Joinville. Quando vim pra cá, comecei a tentar resolver, em forma de lei, o que eu não conseguia fazer lá, por falta de lei. Eu fiz algumas emendas sugerindo mais recursos para a área social e para a área da saúde. Uma delas que tirava dinheiro do próprio poder legislativo. Lamentavelmente, as minhas emendas não foram aprovadas. Precisamos ampliar a rede básica de saúde. Precisaríamos, no mínimo, de 40 % a mais de postos de programas da saúde da família. E mais 250 leitos hospitalares, para atender toda região.

Dentro da realidade do município, hoje, o que é possível?

Tânia: Um pacto União, estado e município, e construir um novo hospital em Joinville.

O que a senhora acha da verba pública destinada para publicidade?

Tânia: Depende. Eu não saberia te dizer com detalhes. Eu acho que nós ainda somos um país muito carente de informações. Os jornalistas sabem disso. Quando eu trabalhava na Secretaria da Saúde eu queria divulgar nos ônibus da cidade os serviços públicos. Não propaganda, mas divulgar para o cidadão, e faltava publicidade. Uma boa publicidade dentro da coerência se faz necessária. Se não se divulga o material, ninguém fica sabendo. A comunidade carece de informação. Não adianta investir em coisas básicas e a população não ter informação. Imagine um vereador com mídia e um vereador sem mídia. Eu não tenho recursos para pagar um jornalista, e sofro as conseqüências disso. Nem todas as minhas informações chegam aonde devem chegar. Eu não tenho dinheiro para pagar publicidade no Jornal A Notícia ou de fazer um outdoor. Agora, outras pessoas têm essas oportunidades de irem a um programa de rádio ou TV. Com certeza a população nem sabe o que eu fiz.

Qual a sua opinião sobre o passe livre?

Tânia: Tu sabes que nada é de graça. Ninguém faz nada de graça. Eu preciso discutir mais sobre isso.

Qual é o seu objetivo político futuro?

Tânia: Eu fui a vereadora mais votada no estado de Santa Catarina. Isso me evidencia num projeto futuro, e sou pré-candidata à deputada estadual.

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