Revi Bom Jesus/Ielusc

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Matéria 1596, publicada em 30/10/2005.


:Jessé Giotti

Murillo detalha ações da Fenaj

Fenaj está mais presente na luta da categoria, diz Murillo


Leia trechos da transcrição da entrevista com o presidente da Fenaj, Sérgio Murillo.

Revi – Para começar, faça um balanço desse primeiro ano da sua gestão na Fenaj.

Murillo – Eu tomei posse na semana em que foi anunciado o envio do projeto do Conselho Federal de Jornalismo ao Congresso Nacional, e isso marcou os primeiros seis meses. Pouco fiquei na sede da Fenaj. Viajei praticamente o Brasil inteiro, em alguns estados fui nas principais cidades. E mesmo depois da derrota do projeto, que foi rejeitado no dia 15 de dezembro, mesmo depois disso ainda tem um rescaldo. Não só eu, mas praticamente todos os diretores da federação e os presidentes dos sindicatos continuam tendo agenda, com uma demanda muito grande, pra participar de debates, participar de entrevistas. Nesse período demos à Fenaj uma posição mais agressiva na sociedade, mais presente. Nos últimos anos a Fenaj estava muito institucionalizada. Nós voltamos a entrar nas redações, voltamos a ter contato mais freqüente com os movimentos sociais, voltamos a ter uma política de comunicação mais sistemática. Em resumo é isso. Depois que a gente se deu conta dessa fase, que o Conselho foi a questão mais marcante. A gente começou a organizar os últimos dois anos pra fazer algo mais planejado, que foi impossível nesse primeiro ano, especialmente nos últimos seis meses.

Revi – Essa presença nas redações resultou em maior mobilização da categoria?

Murillo – Sim, estou participando de negociações coletivas no Ceará, em São Paulo, Sergipe, Alagoas, Santa Catarina...

Revi – Antes a Fenaj não participava diretamente nesse processo...

Murillo – Não. Pelo menos eu, que já fui presidente do sindicato, já fui secretário- geral da Fenaj, não tenho informação disso. Isso é o resultado da presença... a Fenaj tem uma atuação destacada na questão institucional. Por exemplo: nos últimos 20 anos, você não consegue discutir democratização da comunicação no Brasil sem falar da Fenaj. Mas esse lado mais sindical foi colocado num plano secundário.

Revi – Você foi o primeiro presidente da Fenaj que entrou em comissão de negociação salarial?

Murillo – Acho que sim. No máximo, a gente entrava em momentos de conflito. Ah, tem greve? Tem que ir pra lá. Isso aconteceu. Agora nós contratamos um economista que assessora a Fenaj, que na verdade assessora os sindicatos. Como não existe um sindicato nacional dos patrões, nós negociamos através dos sindicatos. A Fenaj não tem experiência em negociação. Vamos ter a primeira agora, com a área de assessoria de imprensa. Acabei de fazer um contato, e dei a resposta pro Sindicato Nacional das Empresas de Comunicação, de que a Fenaj vai negociar com eles. Essa vai ser a primeira vez que vamos fazer uma espécie de convenção coletiva nacional. Isso é algo inovador na nossa história. E por que o economista assessorando os sindicatos? Você senta na mesa com os patrões e percebe o seguinte, como aconteceu comigo lá em Alagoas. [O negociador dos patrões disse] “Não, mas lá no Rio Grande do Sul a RBS tá oferecendo tanto e os jornalistas estão aceitando”. Essas informações eles têm. Em Alagoas sabem quanto estão oferecendo em Porto Alegre. Então, começamos a fazer isso também. A Fenaj está começando a prover informações, dados, relatórios para os sindicatos, sobre o desempenho do setor econômico. Está nos dando a possibilidade de ter uma atuação nacional nessa área que pra nós é fundamental: a defesa de melhores condições de trabalho, defesa de melhores salários.

Revi – Murillo, a gente sabe que as diferenças salariais...

Murillo – Não são grandes.

Revi – Pois é, não são tão grandes assim. Mas os problemas são sempre os mesmos, enfrentamentos com os donos de empresas...

Murillo – Isso. Os salários estão mais ou menos achatados. Tá, algumas empresas de São Paulo, a Globo, no Rio, que só sobrou a Globo no Rio, em algumas em Brasília que representam, em sua maioria, empresas de São Paulo e Rio... O resto tá tudo no limbo, tá ali naquela faixa de mil, mil e duzentos, mil e quatrocentos. E têm as discrepâncias, tipo Sergipe, Aracaju, [onde] o piso é 684 reais, o pior piso do Brasil, um negócio absurdo. Eu estive lá, vou voltar em janeiro na campanha salarial deles. Tem uns desníveis acentuados, mas no geral tá tudo nivelado, e infelizmente nivelado por baixo. Mas não é um problema só dos jornalistas, é um problema de todas as categorias profissionais hoje.

Revi – E quais são as perspectivas, já que os sindicatos estão mais próximos da Fenaj? Você acha que os salários começam a melhorar, acha que essa união da categoria pode contribuir para que o salário suba e fique num patamar adequado?

Murillo – Claro, só que não existe solução isolada. Não vamos recuperar todo o poder de compra do jornalistas e conquistar aumentos reais sozinhos. Isso depende da economia do país, do avanço da própria Central Única dos Trabalhadores. Enfim, nós estamos fazendo a nossa parte, instrumentalizando os sindicatos de maneira mais competente, eficiente. Nós estamos complementando a ação dos sindicatos. Já é perceptível que isso está resultando numa melhor organização. Acredito que vá pelo menos impedir que a gente perca tanto como estamos perdendo. Diminuir essa perda que tem sido acentuada nos últimos anos.

Revi – Acha que a maioria dos jornalistas tem consciência da importância de um conselho federal, assim como é a OAB e os de outras profissões?

Murillo – Nós não sabemos se é a maioria. Pra tu teres uma idéia de como a coisa é tão frouxa, vou citar um exemplo. Durante a campanha da Fenaj eu fui no Acre. Passei em todas as redações, o que não é muito difícil, tu fazes isso em um dia. Não deve ter um jornalista do Acre que não me conheceu pessoalmente. Fui em tudo quanto é lugar de trabalho. Em todo lugar que fui, porque era minha bandeira e até pra me diferenciar do meu opositor, que era contra, eu dizia que se fosse eleito iria lutar para implantar o conselho. Isso entre abril e março do ano passado. No Acre, como no Brasil inteiro até, o pessoal dizia: “Tá legal, tá legal. Como é que vai funcionar? Que bom. Nós precisamos mesmo. Conte com o nosso voto”. Bom, ganhamos a eleição. E ganhamos também por causa do conselho. Porque é visível pra quem participa de processo, dos 6 mil que votaram, que a maioria seria favorável. Até alguns votos da outra chapa também eram a favor do conselho. Depois que saiu o projeto e nós levamos esse pau do Brasil inteiro eu voltei no Acre. E lá tinha um abaixo-assinado, dos jornalistas, contra o conselho. Então, não sei se é a maioria. Nós fizemos uma reunião em março deste ano, depois da surra. Fizemos um rescaldo do processo, uma boa avaliação. E serviu pra pontuar nossos erros. E criamos um plano de luta. Avaliamos que não adianta apresentar o projeto neste ano, tampouco no ano que vem, que é um ano eleitoral. Nesse período temos que acumular forças e investir em alguns adversários, em alguns oponentes, como é o caso da ABI. Porque uma coisa é a oposição ferrenha da ANJ, [com a qual] nós já estamos acostumados. Mas a ABI se aliar à ANJ é complicado porque dá argumento pro outro lado. Nós estamos investindo em recuperar a posição da ABI. E sobre o final desse projeto, uma das questões é fazer o plebiscito, um referendo, uma consulta ao jornalista. A impressão que tenho é de que a maioria nos apoiaria.

Revi – Mas então o caminho seria adotar uma posição menos ferrenha, não bater de frente com os veículos de comunicação, dar mais viabilidade ao conselho?

Murillo – Tudo isso que você falou são várias ações que temos que combinar. Em primeiro lugar, acho muito difícil dobrar os empresários. É uma questão de conjuntura também. A conjuntura daquele momento estava favorável. O governo, que estava forte, era a favor do conselho. E mesmo assim eles resolveram sair atirando. Vou falar com a Globo, vou falar de novo com a RBS, mas acho difícil que eles mudem de posição. Nós temos que mudar a posição da ABI, temos que mudar a posição de alguns jornalistas. Não de todos, porque tem alguns que são adversários mesmo da nossa organização, muito mais próximos dos interesses das empresas do que dos nossos interesses. Mas alguns... Por exemplo, num debate com a Eliane Cantanhede, ela começou a bater no projeto, aí eu comecei a falar do projeto, e ela disse: “Ah, mas eu não sabia que era assim”. O Ancelmo Góis, um ano depois que o projeto foi pra rua, foi participar de um debate agora no Rio de Janeiro, num evento da Fenaj, e falou mal do projeto. Aí o pessoal [perguntou]: “Mas tu já leu o projeto?” [Ancelmo respondeu] “Não”. Um ano depois o cara continua falando mal do projeto sem ter lido. Fui fazer um debate em São Leopoldo, na Unisinos, com um radialista, o Jaime Kopstein. Num determinado momento — onde eu vou eu conto isso pra mostrar qual o tipo de oposição que nós sofremos —, eu estava conversando com o Edelberto Behs, que era o mediador do debate, e não prestei atenção no que ele [Kopstein] estava falando. Era uma resposta a uma intervenção que ele tava dando. Aí ele falou que o artigo 38 é um absurdo. Daí perguntei pro Behs sobre o que ele tava falando. O Behs disse que não entendeu. Perguntei qual era o artigo ao qual ele estava fazendo referência. Ele falou: “É, quero que vocês falem aí qual é a explicação pro artigo 38?”. Como, artigo 38? A lei tem 19 artigos! Ele pegou um treco lá, alguém deu algum documento pra ele, ah, é o artigo 38. E ele nem sabia o que era, tava enfrentando uma lei que não tinha lido também. Mas houve esse tipo de coisa. Era geral, as pessoas estavam contra. Esses jornalistas do Acre, que assinaram o abaixo-assinado, não leram! Aí eu dizia: lê aqui na minha frente, mostra onde é que tem problema. Ah, não, é bom, né? É bom. Tanso. (risos)

Revi – O conselho foi sua principal proposta para se eleger. Pretende dar continuidade?

Murillo – Ah, é uma obrigação que eu tenho. Tá no programa da chapa. E te digo o seguinte: já votei contra essa proposta. Foi em 1996, num congresso em Porto Alegre. Mudei de posição, as pessoas evoluem. É uma convicção que eu tenho, que a Fenaj tem, que os sindicatos têm. O conselho é central hoje pra nós. É uma forma de fazer frente a esse processo de degeneração da nossa profissão. Não é uma falácia. Porque seria no mínimo falacioso se eu dissesse que o conselho vai resolver todos os nossos problemas. Mas vamos ter um mecanismo importante pra moralizar nossa atividade profissional. Atuando às vezes com os sindicatos, às vezes contra. É normal. É um filho que você põem no mundo que depois pode defender coisas diferentes de você. Mas é essencial, nós temos que perseguir esse conselho. A OAB levou quase 100 anos pra ser constituída. A primeira vez que um projeto de conselho foi pro Congresso faz 40 anos. É muito tempo, mas comparado com os 100 da OAB... Talvez ainda consigamos. Nos nossos cálculos, dependendo é claro do país que vai ter em 2007, de quem será o presidente, qual será o Congresso, mas a idéia é reapresentar o projeto ao novo Congresso em 2007. E até avaliar melhor se é mesmo fundamentalmente necessário que seja através do presidente da República. Há uma interpretação, meio isolada, de que não há necessidade. Mas no geral, os juristas, os advogados, a assessoria técnica, dizem que o projeto tem que ir pro Congresso Nacional através do presidente da República. É constitucional. Talvez a gente corra o risco de enviar direto pro Congresso Nacional. Mas é uma questão que nós teremos tempo pra pensar e avaliar.

Revi – Você diria que a grande dificuldade na aprovação do projeto seria a oposição das grandes empresas de comunicação, que são formadoras de opinião?

Murillo – Também. Principalmente. Mas também, nossa profissão é relativamente recente no Brasil. A primeira escola é da década de 40. A regulamentação é de 1969, atualizada em 1979. Nós ainda perseguimos uma valorização. E isso é um dos problemas. Até ser reconhecido como trabalhador realmente. A gente persegue a superação disso. E tem o problema das empresas, que não valorizam o trabalho jornalístico. Isso é uma verdade. Tem o problema da própria estrutura do sistema de comunicação no Brasil. Que é extremamente concentrado. Isso interfere no mercado. Interfere na nossa organização. E tem o problema cultural, essa questão que acaba refletindo no meio jornalístico. Esse negócio de se enxergar como trabalhador, de valorizar mais as suas entidades de classe, e se preocupar mais com a grande relevância que tem a ética na nossa profissão. É um somatório de questões. E eu diria que o principal problema é sim essa relação medieval que os empresários mantêm com a classe dos jornalistas.

Revi – E formam opinião contrária...

Murillo – Sim, são autoritários. São golpistas. Falo nas relações sindicais. Esvaziam, procuram fragilizar as relações sindicais. Mantêm um discurso público cínico, que é de apoiar as comunidades, as organizações sociais. Mas nos sindicatos dos jornalistas a atuações deles é pra quebrar os sindicatos. Isso é o que se vê de norte a sul do Brasil. É uma relação medieval mesmo. [imitando alguém] “Ah, mas a gente faz um acordo, as empresas vão respeitar”. Respeitam nada, não respeitam a CLT. Este predador de salário que é o Nelson Tanure disse na cara dura, pra Fenaj e pros sindicatos: “Eu não respeito essa CLT. Vou rasgar essa CLT. E vou rasgar no governo de vocês, no governo que vocês elegeram”. Disse isso numa reunião com um monte de gente. Inclusive com o ministro do Trabalho, que fica quieto. O bosta do Berzoini, que tá pra se eleger presidente do PT.

Revi – A Fenaj faz um levantamento sobre a situação dos jornalistas nos outros países para saber, por exemplo, nessa questão do conselho, onde funciona e onde não funciona?

Murillo – Não faz. Nem no Brasil. Todo congresso que eu vou dizem que tem que se fazer uma pesquisa pra levantar a situação dos jornalistas do Brasil. Quanto ganham, qual a idade, a escolaridade? Enfim, não sabemos. Isso é um problema. Quem vai patrocinar um negócio desse? Então é uma coisa que estamos tentando, conversando com as escolas. A idéia é pagar uma estrutura nacional e regionalizar com o apoio das escolas. É uma idéia. Nessa questão do conselho, por exemplo, não tinha nada. Aí, como acabei virando um debatedor, comecei a ler e descobri que a maioria dos países democráticos tem conselhos, mesmo muito parecidos com o nosso. Tem conselho no Peru, no Chile. E a maioria foi implementada com o mesmo tipo de resistência: dos grandes empresários de comunicação e de jornalistas famosos. Com os mesmos tipos de medo. Dizendo que [os conselhos] vão servir pra censurar jornalistas, vão estar a serviço do estado. Mas você vê que todos são um instrumento de fiscalização do estado. Estão denunciando ações autoritárias do estado. Têm conselhos funcionando há dezenas anos. Principalmente na Europa. E muito parecido com o que estamos fazendo aqui. Alguns com participação só de jornalistas, alguns com empresários também. O que estamos tentando fazer aqui é um conselho híbrido. Não igual à OAB. Com jornalistas e com a participação da sociedade. Uma idéia inovadora que não nos deram oportunidade pra defender. Na comissão de ética, que julgaria aspectos disciplinares dos jornalistas, iria ter participação da sociedade, representação da sociedade.

Revi – Como você avalia o trabalho da imprensa na cobertura do escândalo do mensalão?

Murillo – Em primeiro lugar, acho que a imprensa está cumprindo seu papel. Está prestando um serviço à sociedade brasileira. Como já disse, sou um pessimista, mas um pessimista utópico. Acho que o país que vai sair dessa crise é um país melhor do que o país em que a gente vive hoje. Pode demorar um pouco, até as questões se acertarem e tal. E bem ou mal a imprensa está dando sua contribuição para que isso aconteça. Mas um dos grandes problemas é o volume imenso de demissões. O jornal acaba ficando sem jornalistas. Não tem reportagem. O jornal acaba ficando extremamente dependente de fontes externas. Isso interfere no noticiário. O volume de dossiês que chegam às grandes revistas é imenso. Tá todo mundo escrevendo relatório, todo mundo fazendo dossiê, todo mundo grampeando todo mundo. E mandam isso pra imprensa, que acaba sendo reservatório desse monte de interesse. É interesse do governo, interesse da oposição, é interesse do empresário. E como a imprensa não tem esse lado mais investigativo, não destaca repórteres para ficar meses investigando esses casos, o que é cada vez mais raro, isso é um dos principais problemas, acaba distorcendo o noticiário, abrindo espaço para manipulação, ampliando espaço para interesses escusos. Que não são os interesses na maioria da sociedade. Isso é resultado de uma desestruturação dos veículos de comunicação, das reportagens. E tem outras questões: a imprensa tem ficado muito no superficial, muito no espetacular, e acaba perdendo oportunidades importantes. É interessante observar: o Roberto Jefferson se surpreendeu com o grau de surpresa dos jornalistas. “Como, vocês não sabiam?”. E é verdade. Há muito tempo já se falava em mensalão mas ninguém investigou. Aí fica parecendo que tudo surgiu agora. Não se estabelece relações históricas. Não se denuncia que isso não é um negócio episódico, não é um negócio só do Congresso Nacional. É um problema da sociedade. Temos um modelo de negócio que [faz com que] essas coisas acabam ficando naturais. Pedir nota fria não é privilégio do PT. Isso é uma questão que está no dia-a-dia de todo mundo. E temos uma estrutura tributária no Brasil que é maluca. Que praticamente obriga mesmo quem quer ser honesto a ser desonesto. São questões que poderiam estar sendo levantadas. Claro que tem que cobrir o que é episódico, o que é notícia. Mas é que nós jornalistas poderíamos, os veículos de comunicação de um modo geral poderiam ir além disso. Poderiam, por exemplo, levantar os interesses internacionais que não são revelados. Isso poderia ser [feito]. Na prática estamos fazendo nosso papel. Papel que a sociedade espera que o jornalista faça. Mas temos a obrigação de ir além disso.

Revi – Uma das coisas nas quais a imprensa poderia ir além não seria uma tentativa de diferenciar o tipo de corrupção que está havendo agora com o tipo de corrupção que houve no governo Collor? Porque o leitor comum está percebendo isso como mais um episódio dos tantos que houve na República: desvio de verba para enriquecimento ilícito, para formar patrimônio pessoal. Mas a crise atual tem uma natureza diferente. Não foi um ataque ao patrimônio público, ou mesmo privado, com propósitos pessoais. Havia um projeto coletivo por trás. É irregular da mesma forma, mas havia um projeto de poder, estratégico, político.

Murillo – Eu concordaria até aparecer o tal de Land Rover.

Revi – Mas o Land Rover é de uma pessoa.

Murillo – Acho que deve ter mais gente que embolsou. Até onde sei o Delúbio...

Revi – Mas não é o caso do José Dirceu, do José Genoíno...

Murillo – Não é caso nem do Delúbio. O Delúbio mora num apartamento alugado.

Revi – Mesmo o Delúbio não é um histórico do PT.

Murillo – Ele é. Ele é um dos sindicalistas que participou do surgimento da CUT. E não é um cara rico. Muito pelo contrário. Nem o Genoíno, nem o Zé Dirceu, nem o Lula. A não ser que depois apareça dinheiro fora. A imprensa poderia diferenciar sim. Mas a imprensa não tem o menor interesse de fazer isso. Poderia diferenciar do período Collor. Que era uma apropriação pessoal de recursos públicos. E até agora não mostraram que agora tem dinheiro público. Poderia mostrar a corrupção que houve no período de privatização [durante o governo de FHC]. Com apropriações privadas por grandes grupos empresariais. Em volume de dinheiro, o que o Marcos Valério mexeu é fichinha se comparado com o dinheiro pilotado pelo Fernando Henrique Cardoso. A imprensa poderia fazer isso. Mas não tem o menor interesse.

Revi – É uma ética burguesa, moralista...

Murillo – É moralista. Qual é a lógica que está predominando? Hoje você pega jornais dizendo que é um absurdo o governo interferir na eleição do presidente do Congresso. Qual é o presidente do Congresso, da Câmara ou do Senado, que foi eleito sem pressão do governo? Isso é um esforço deliberado em nivelar todo mundo, e nivelar por baixo.

Revi – E está predominando um discurso que diz que esse é o maior escândalo da história da República.

Murillo – Não é. Em volume de dinheiro, por exemplo, é o processo de privatização. Isso é uma coisa preocupante. Se você disser pro leitor que todo mundo é igual, como o niilista do Clóvis Rossi, que não adianta fazer nada, é tudo a mesma coisa, isso é como dizer pras pessoas que ano que vem elas podem votar em qualquer um ou nem votar, porque não dá em nada. Isso é sério.

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