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Matéria 1535, publicada em 21/10/2005.


Entre falas de pesquisadores delírios de um repórter

Jessé Giotti

Ocorreu na noite de ontem, no anfiteatro do Ielusc, a abertura do 5º Seminário Sul-brasileiro de Comunicação. Nesse primeiro dia do evento, que tem por tema “Alternativas à Comunicação”, os pesquisadores Luiz Martino (professor titular da UnB) e Patrícia Saldanha (publicitária, professora titular da UFRJ) falaram de suas recentes pesquisas no campo da comunicação.

Patrícia tentou repensar a publicidade. Por um viés ideológico que não esteja comprometido apenas com o “mercado”. Estudou publicações em favelas e pequenos municípios. Como o pequeno município de Xerém, onde encontrou uma publicação que segundo ela correspondia a ideais políticos comprometidos com a população, numa ética para o bem comum. Disse também que é possível negar a deontologia mercadológica, atitude que subjuga a ética social e supostamente funciona como um habeas corpus a quem pratica crimes de lesa-humanidade. E mesmo absolve quem os pratica.

Tudo podem os que falam em nome do mercado, é a lógica; e o que está em jogo é tão somente o bem de um certo capital que se impõem numa chantagem ao indivíduo com ele envolvido. Por último, o que sobra é o bem para “si”. Há mesmo os que se impõem uma consciência tardia. E quando inúteis pro mercado, ou por ele rejeitado, se comprazem pelo bem próprio como se fosse apenas pelo bem alheio, num altruísmo “puro” e reluzente. A pesquisadora disse conhecer várias pessoas que disseram: “Não, isso eu não faço. Daqui não passo”. E mantiveram o senso ético. O mercado é como um grande trompete l’oil. Obscurece razões, turva consciências, se apresenta de várias formas, para os vários tipos de olhares. “Escolham suas razões, seu álibis, seus argumentos em defesa própria. Nós fornecemos consciências tranqüilas para alguns a custo de outros poucos”, anuncia-se o “salvador” — do reino da terra. Quantos executivos, especialistas, cientistas não fornecem meios para o mercado usufruir o que lhe advoga de direito? Usurpam-se populações negam-se terras, empregos e tudo quanto o mercado pedir em sacrifício.

No jornalismo, suposto artífice ético em prol da sociedade, a deontologia do meio consome ética e morais como crianças comem suspiros. Que maneira há para de superar essa impressão de estar “dentro-fora” de uma lógica que te consome, e consome. Como sair do pedantismo “do contra” pálido e melancólico — quando não hipócrita, e só.

Enquanto um dos conferencistas dizia que o problema do marxismo era dizer que tudo que lhe era contrário não era; não era bom; não era justo; não era, sequer, a realidade. Outro dizia que se a Globo tem certa posição por um determinado assunto já é indício de que isto tende a ser escuso.

(nesse ponto é que o repórter se distrai)

Esse tema me levou a pensar. E dos jornais que conheço, que horizonte eu posso? Um não anuncia eventos de quem não paga anúncios em suas páginas e é indiferente à estupidez do político maior desta cidade pacata. Outro, nega-se a fazer certas pautas por que podem lhe referenciar a uma atitude “esquerdista” — mas que bela merda se imprime nessas páginas sobre a história do presente úmido dessa gente.

– O que tenho é a lembrança de um sonho que tive.

– E o que era menino, que desejos habitam teus delírios?

– Sonhei que tinha braços longos e a faculdade de sentir como um bicho sente o tempo e o cheiro. Com um bico de condor gritava aos heróis... aos bravos... aos adormecidos... aos seus espíritos. Pedia que me vissem, batia minhas asas em frente a suas moradas... preparava seus cavalos... afiava suas espadas. Pedia que me vissem. Desperto, “porém, não os encontro. Minha ansiedade está cheia dos velhos heroísmos, dos antigos heróis”.

– Sonhaste também com algumas de minhas dores. Mas não doem mais. Já não sinto tanto os outros. Pele apodrecida perde um pouco do tato.

– Mas por que ainda alimento essa impressão de ser todo mundo? Por que eu seria esse cruzamento de ecos que disseram e sentiram tudo? Por que eu repetiria tudo isso? Por que seria esse tráfego dos outros, mortos e vivos; essa passagem temporal e mundana do riso e do lamento dos alheios. Por que os outros me interessariam, se tudo que ouço, tudo que vejo tem cheiro de mim, as coisas todas têm esse cheiro infantil — e isso é tudo.

– Não se gabe, não se pense bom, isso é o que não é. Reparai que necessitamos que se chamem bons aos de coração reto, e não aos flexíveis e submissos. Reparai que a palavra se vai tornando acolhedora das mais vis cumplicidades, e confessai que a bondade das vossas palavras foi sempre — ou quase sempre — mentirosa. Alguma vez temos de deixar de mentir, porque, no fim de contas, só de nós dependemos, e mortificamo-nos constantemente a sós com a nossa falsidade, vivendo assim encerrados em nós próprios entre as paredes da nossa astuta estupidez.

– Portanto outorgo minha bondade aos vivos e aos mortos, aos imundos, aos campeões, aos famintos, a mim mesmo outorgo a bondade que quero. E regozijo-me de minha bondade mesquinha.

– Começas a entender que os bons serão os que mais depressa se libertarem desta mentira pavorosa e souberem dizer a sua bondade endurecida contra todo aquele que a merecer. Bondade que se move, não com alguém, mas contra alguém. Bondade que não agride nem lambe, mas que desentranha e luta porque é a própria arma da vida.

– Eu só queria poder espancar cachorros e pessoas e não sentir mais nada. Queria deixar de me vingar. Queria correr um pouco, comer qualquer coisa e dormir.

– Quem sabe ainda encontres um último herói, aquele que ainda não morreu.

– O último herói de que tive notícias era um louco. O sujeito falava como peixe e tinha pensamentos de bromélias. O tal tinha idéias enroladas como um caracol. Mas mesmo assim defendia teses, construía castelos, outorgava leis e fumava charutos enrolados nas coxas de Fidel. Louco.

– Então sonhe novamente. Sonhe continuamente. Sonhe com os olhos arregalados. Ainda que desperto, sonhe.

– Agora, nem em sonho, meu caro poeta. Eu esqueci. Preciso viver.

O pesquisador ainda falou da dificuldade e incoerência recorrente no meio das classificação das teorias que correspondem a comunicação. Falou sobre o problema que se constitui em colocar os ideais políticos à frente da teoria, das pesquisas. Alguém pensou que pode haver problema também em colocar a teoria na frente da vida, não que uma não corresponda a outra, mas não são nunca a mesma coisa. Martino disse ainda que a academia não deveria se preocupar em formar jornalistas apenas para o mercado.

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