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Matéria 1393, publicada em 12/09/2005.


Rádio joinvilense: primeiro o lucro, depois o conteúdo

Erivellto Amaranth

Entreter, talvez. Informar, improvável. Depois de passar duas tardes dentro das principais emissoras de rádio de Joinville (AM e FM) foi possível verificar o quanto falta para esses veículos de comunicação cumprir o seu importante papel social. Faltam profissionais qualificados e sobram aventureiros apaixonados pelo ofício de radialista. O jornalismo, que sempre mereceu destaque na programação das rádios brasileiras (marcando época com os noticiários “Repórter Esso” e “Jornal Falado Tupi”), simplesmente não existe nas emissoras radiofônicas da maior cidade do estado. Paulo Giovane da Rosa, responsável pelo setor de gravação das rádios Cultura AM e Transamérica FM, resume muito bem a função das emissoras em que trabalha: “Nosso objetivo é vender entretenimento, estou terminando o curso de jornalismo no Ielusc, reconheço a sua importância (jornalismo) para a comunidade, mas as emissoras não têm estrutura e recursos para instalar um departamento de comunicação atuante na rádio”.

Nossa jornada começou na segunda-feira, 5 de setembro, quando a equipe da Revi foi conhecer os estúdios das rádios Cultura AM 1.250 kHz e Transamérica 91,1 FM. Faltavam 15 minutos para as 14 horas e ao entrar no estúdio da rádio AM, nos deparamos com o radialista Aymoré do Rosário, popularmente conhecido como “Zeguedé”, apresentando o seu tradicional programa “Ronda Policial”. A expectativa da maioria dos visitantes era conhecê-lo de perto. Até então, apenas imaginávamos a sua aparência. A magia desse veículo, que apenas exige a audição dos ouvintes e desenvolve a sua imaginação, acabou naquele instante. A impressão de um personagem lendário, folclórico e popular não se confirmou. O Aymoré do Rosário é uma pessoa comum. Vestindo calça social, um suéter e sapatos pretos, os cabelos grisalhos denunciam os seus 64 anos de idade. Igual a qualquer outro sujeito humano. Depois de conversarmos um pouco com o “Zeguedé”, no término do seu programa, saímos do estúdio da Cultura. Atravessamos a recepção, em poucos passos estávamos no estúdio da Rádio Transamérica, pertencente ao mesmo grupo.

Uma das maiores diferenças entre a rádio AM e a FM está na parte técnica. Enquanto no dial AM existe um operador de mesa ao lado do locutor, na FM o locutor também é responsável pela mesa de operação. “Gostava do tempo em que trabalhava com duas cartucheiras e usava aqueles pesados bolachões para colocar as músicas no ar. O trabalho manual era mais cansativo, porém, muito mais gratificante”, explica o locutor Silvio Jacon, insatisfeito com o uso exagerado do computador e das novas tecnologias no seu local de trabalho. Jacon trabalha há 16 como locutor e já passou por emissoras do interior de Santa Catarina, Curitiba e Portugal.

Encerrando a agenda de visitas, na quinta-feira, 8 de setembro, fomos conhecer a Rádio Globo AM, afiliada ao Sistema Globo de Rádio, e a Floresta Negra FM. Nessa primeira, eram grandes as expectativas, já que é conhecida como a única emissora da cidade que possui uma programação jornalística, além de levar em seu nome (Globo) um dos símbolos de referência da informação no país. Porém, mas uma vez me decepcionei. Chegando na redação da Globo AM, encontramos a jornalista Charlene Serpa que acabara de apresentar o programete noticioso “Globo no Ar”. Mesmo com pressa, sentou para conversar com a gente. Sobre a estrutura da rádio, foi enfática: “Fazemos o que a gente pode, é complicado produzir informação com apenas seis pessoas, divididas em dois turnos. Precisamos de uma equipe muito maior para realmente exibir um bom conteúdo jornalístico”.

O tempo passou e as dúvidas se esgotaram. Saiu a Charlene e entrou na sala o locutor, formado em jornalismo no Ielusc, Celso Schmidt, 44 anos de vida e 21 de rádio. Ele é o comunicador responsável pelos programetes da tarde e pelo jornalístico “Globo Cidade”. Quando começou a falar sobre a produção dos seus programas, logo me veio a pergunta: isso é jornalismo? Schmitt chega por volta das 13 horas na rádio, abre a sua caixa de e-mail e pronto, ali estão as notícias de hoje. “Recebo todos os dias entre 150 a 180 releases de agências de comunicação. Órgãos do governo municipal, estadual, empresas privadas, universidades e outras instituições. Nossa, não é fácil ler todos esses textos e depois recortar do e-mail e colar no Word”, explica ele. Depois de verificar o correio eletrônico segue para o telefone. Como trabalha praticamente sozinho, não pode se deslocar da emissora para fazer entrevistas e colher informações. Então tudo é feito pelo telefone. Liga para o Corpo de Bombeiros, Guarda Municipal, delegacias e usa um equipamento acoplado ao computador para gravar as sonoras e depois fazer uma rápida edição. Fico pensando: as notícias do seu programa são repassadas por assessorias de imprensa. Por mais que tenha vontade, não existe tempo para checar as informações, então como fica a credibilidade?

Deixamos a Rádio Globo AM e subimos as escadas do prédio. No piso de cima fomos recepcionados por Ana Paula Peixer, da Rádio Floresta Negra FM. Ana mostrou como é produzido o seu programa “Chilli Magazine”, revista semanal que une notícias com entretenimento, que vai ao ar todos os domingos das 18 às 20 horas. Quando entramos em sua sala, a diretora Morgana Raitz estava finalizando o capítulo de uma radionovela que é exibido no “Chilli”. Em seguida, acompanhamos o ensaio e a gravação do episódio. Depois de passar por tantas emissoras de rádio, finalmente encontramos uma idéia inteligente e cultural. Resgatar as radionovelas é reviver a era de ouro do rádio brasileiro, momentos inesquecíveis que marcaram a vida dos nossos pais e avós. Espero que, assim como as radionovelas, o jornalismo dos velhos tempos renasça das cinzas.

800x600. ©2005 Agência Experimental de Jornalismo/Revi & Secord/Rede Bonja.