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Matéria 1383, publicada em 09/09/2005.


Quando a necessidade bate à porta

Lygia Veny

Chinelo de dedo, calça de moletom e uma camiseta de mangas curtas são as vestes de Adriana Fernandes, 30 anos, divorciada. Mãe de Edinei (13 anos), Jocinei (12) e Samara (5), é natural de Joinville e mora numa casa — se é que se pode chamar de casa — feita de madeira. Um amontoado de madeiras. Tem dois quartos, cozinha e um banheiro que fica fora da residência. O primogênito ficou deficiente físico devido a um tumor na espinha.

Uma traição pôs fim no casamento. Adriana nunca recebeu pensão alimentícia para os filhos, pois o ex-marido alegava não ter dinheiro para sustentar duas famílias. Atualmente ele colabora pagando as contas de água e luz. Era uma mulher infeliz. Sofria agressões do cônjuge e tinha de suportar, pois ele trabalhava para sustentá-los e ela era apenas uma dona-de-casa. “Nunca fui feliz no casamento”, afirma Adriana.

O tempo foi passando e as dificuldades aparecendo. Nem todos os dias tinham o que comer, as fraldas para o filho deficiente acabaram, a luz foi cortada. Não conseguia emprego e não podia contar com o pai de seus filhos. Adriana entrou em depressão e só queria morrer, “nem nos filhos queria pensar”.

Desesperada, relutou por dois meses até encarar a nova situação e pedir ajuda à cozinha comunitária do bairro. “Foi muito difícil ver meus filhos passando fome. Mais ainda ter a humildade de admitir a miséria dentro de casa”, confessa, contendo o choro. Teve de superar o orgulho e se adaptar às condições impostas pela vida. “Um chefe de família que nem a comida consegue pôr dentro de casa perde a dignidade. Mas eu não podia ficar com vergonha de pedir e ver meus filhos precisando comer. Sem essa ajuda a gente não ia conseguir sobreviver. Mesmo com pouco, estamos recuperando nossa felicidade. Troquei meu preconceito pela solidariedade.” Ela é grata à cozinha comunitária e ajuda com o que pode. Lava louça, varre o chão, limpa os banheiros. Até os filhos ajudam passando pano nas mesas e servindo aos outros. As crianças são bem educadas e valorizam tudo o que têm. Estão saudáveis e mais dispostas para brincar.

Adriana contava com o auxílio gás, concedido pela escola onde os filhos estudam, e com o programa social bolsa-escola, cortado após quatro meses de adesão. O motivo do cancelamento do benefício foi o fato de ela não poder ter dois cartões (auxílio gás e bolsa-escola).

Preocupada, entrou em contato com uma central de atendimento em Florianópolis, que prometeu cadastrá-la no programa bolsa-família. Até hoje não recebeu dinheiro algum. Os filhos continuam estudando e uma igreja doa cestas básicas mensais à família. Diariamente almoçam na cozinha comunitária e, ali, Adriana conseguiu um emprego de diarista e recebe R$ 30,00 por semana. Mesmo com as dificuldades não perde as esperanças, pois já houve muitas melhorias. “Por tudo o que passei sou uma mulher mais forte e sei que ainda tem muito chão pela frente”, avalia, otimista.

O projeto Cozinhas Comunitárias é voltado a crianças e adolescentes de famílias carentes. Os beneficiados devem estar estudando. Existem em Joinville 20 cozinhas espalhadas nos bairros mais pobres.

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