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Matéria 1122, publicada em 04/05/2005.


Carnaval extinto por atitude tradicionalista da prefeitura

Vanessa Bencz

A escola Príncipes do Samba precipitava-se pela avenida ao embalo da percussão frenética. No carro alegórico sambavam mulheres brancas e negras, fantasiadas com plumagens e penas, assemelhando-se a araras azuis. Transmitiam com beleza um clamor à preservação do pássaro. Já os homens desfilavam no chão, com o rosto pintado de verde, amarelo, azul e branco, glorificando as tonalidades do país. O público da arquibancada – que já passava de 20 mil pessoas –, com emoção e entusiasmo, ovacionava incessantemente aquele arco-íris de matizes epidérmicas, legítimo do Brasil.

Certamente, essas imagens remetem o leitor aos carnavais do Rio de Janeiro, São Paulo, Salvador, Recife, e outras capitais que promovem grandes festividades em fevereiro de todos os anos. Porém, a narração acima não se refere a uma capital – trata-se de Joinville nas décadas de 1970 e 80.

Fevereiro de 1974 está marcado na história de Joinville como a data em que a cidade, de arquitetura e hábitos nórdicos, aderiu a um costume brasileiro em sua plenitude: o Carnaval. Nestor Padilha, oficial de justiça aposentado, foi um dos idealizadores da festa. “Não houve maior prova de veneração à cidade do que essa festividade. Teve uma vez que montamos um carro alegórico recriando a catedral em miniatura. No ano seguinte, homenageamos Juarez Machado. Aquela Rua do Príncipe ficava lotada”, recorda. Outra participante assídua dos carnavais foi a artista plástica Odete Nery, responsável por desenhar o figurino e desenvolver o enredo. Ela perdeu a conta de quantas vezes participou do evento. “Só pessoas maravilhosas participaram daqueles carnavais”, relembra, nostálgica. “Aquilo era pura manifestação da cultura brasileira, o que é de extrema importância”.

O fato de Joinville ter apenas três escolas de samba não tornava a premiação menos concorrida. Príncipes do Samba, Unidos do Boa Vista e Fúria Tricolor competiam acirradamente pelo troféu de melhor escola do ano. A que coleciona mais títulos é a Fúria Tricolor, vencedora por 12 anos. “Toda vez que a Tricolor ganhava, o pessoal da escola de samba ia para a Liga da Sociedade e festava até as 7 horas da manhã”, conta Padilha, entusiasmado.

Apesar de todo o sucesso e aprovação maciça do público, em 1993 o então prefeito Wittich Freitag resolveu botar um ponto final no Carnaval local. O político alegou como pretexto a “falta de condições monetárias da prefeitura” e converteu a atenção para a Fenachopp, evento propício para beber chope e disseminar os costumes dos imigrantes alemães. “O pessoal se revoltou e fez uma manifestação para a volta do Carnaval de rua. Muita gente mandou cartas para rádios, televisões e jornais para sensibilizar o prefeito. Até uma enquete foi feita”, relata Padilha. No ano seguinte, conseguiram realizar uma última vez o Carnaval. Depois, restaram apenas promessas ilusórias. “Freitag esterilizou Joinville culturalmente. A prefeitura não liberou mais recursos para o Carnaval e isto foi um atraso de vida. Nossa manifestação mais importante foi saqueada”, lamenta Odete.

Muitos habitantes jovens nem imaginam que Joinville já foi palco de carnaval de rua. Primeiro, porque a cidade preserva mais os hábitos de imigrantes europeus. Segundo, pelo fato de a festividade ter iniciado há 31 anos, e terminado há 12. E depois, como destaca Padilha, mais nenhuma liga de sociedade se animou a promover carnavais em clubes. “O Carnaval em Joinville acabou”, lamenta.

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