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Matéria 0709, publicada em 15/06/2004.


:Fabrício Porto

Operadora de telemarketing nunca mais

Rosana Rosar

Seis horas diárias trabalhando ao telefone, pedindo doações e ajuda para a LBV, Legião da Boa Vontade. Um trabalho desgastante. Sentadas em cadeiras desconfortáveis, em frente a um aparelho de telefone, as operadoras de telemarketing cumprem sua função na empresa: insistir para que a comunidade doe quantias em dinheiro, ajuda destinada às crianças assistidas pela LBV.

Há a necessidade de se convencer quem está do outro da linha. Tenta-se manipular sentimentos, apela-se para o emocional e o religioso para dessa forma atingir o êxito, conseguir as doações e cumprir as metas necessárias para ganhar a comissão. Um ambiente competitivo, onde cada um quer conseguir mais contribuições que o outro. Vagas para operadoras de telemarketing estavam sendo disputadas no dia 1º de junho de 2004.

Fui uma das candidatas. Após ser apresentada à forma de trabalho da LBV, o salário e os benefícios recebidos, fui encaminhada à sala do telemarketing e observamos por algum tempo como era o trabalho das operadoras. Depois, foi feito um teste, em que as candidatas ficaram cerca de uma hora ao telefone pedindo contribuições àqueles que nunca colaboraram com a LBV. Vários “nãos” recebidos e muita grosseria por parte daqueles que receberam as ligações. Com o teste concluído, a próxima etapa foi marcada para o dia seguinte.

No segundo teste, três horas ao telefone novamente conversando com aqueles que não contribuem. A coordenadora observava atentamente, o clima de competição era grande e a pressão também. A manipulação ficou mais uma vez evidente. As outras operadoras apelavam para o emocional de quem estava do outro lado da linha, invocando o tempo todo a figura de Deus e enfatizando a situação de pobreza das crianças que deveriam ser ajudadas. Após ouvir vários xingamentos e sem vontade de manipular os sentimentos dos que me ouviam, desisti do emprego. Larguei tudo, levantei da cadeira, deixei o telefone e conclui que não havia nascido para aquela atividade.

A rotina de trabalho começa às 8h, os funcionários fazem a prece e às 8h15 começa a seqüência de ligações. O intervalo para o lanche é feito das 11h às 11h15, quando retornam e ficam até as 14h15. Rotina cansativa e estressante, a qual muitos se submetem, por não ter alternativas.

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