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Matéria 0500, publicada em 28/10/2003.


:Valter Busto

Catracas dificultam passagem de usuários de ônibus

Os usuários de ônibus é que pagam o "pato"

Adriana Bernardo, Charles Herberts, Flávia Maria Moreirae e Valter Busto, alunos do 6° semestre de Jornalismo

Constrangimento, vergonha e humilhação. Essas são algumas situações que crianças, mulheres, idosos e obesos enfrentam ao utilizar o ônibus público de Joinville. Muito altas, as catracas dificultam a passagem dos usuários. Passageiros com sacolas, pastas ou qualquer outro objeto nas mãos têm que levantá-los para passar pelo equipamento ou então passar de lado.

Durante a gestão do prefeito Mário Covas na Prefeitura de São Paulo, na década de 80, a frase "Transporte, um direto do cidadão, um dever do Estado" estava pintada em todos os ônibus que serviam ao transporte coletivo da cidade. Naquela ocasião, a cidade era bem atendida pelos serviços das empresas permissionárias responsáveis pela interligação com o metrô da capital. A logística dos transportes funcionava bem, e servia como modelo para outros municípios do país.

Transcorridos mais de 20 anos, o Estado brasileiro está com sérias dificuldades de caixa, as políticas públicas são insuficientes para atender a demanda da população e, segundo especialistas, não há solução para esses temas a médio prazo. No varejão dos problemas que atingem as classes C, D e E está o transporte coletivo: caro, insuficiente e inadequado. Durante seu deslocamento para o trabalho o cidadão comum perde até quatro horas diárias.

Joinville ainda está livre do flagelo do trânsito caótico e de ônibus sucateados. A frota em atividade das duas empresas existentes está em boas condições. Existe o sistema de bilhetagem eletrônica, devidamente assimilado pela população, trajetos relativamente curtos, além do sistema de interligação de linhas nos terminais de ônibus. Tudo estaria bem e de conformidade com o discurso oficial de "qualidade total" nos transportes, não fossem os constantes transtornos da população com as catracas existentes nos ônibus do município.

Na compra de um ônibus, quem escolhe o modelo da catraca é o cliente, afirma Henrique Ogawa, assessor de comunicação e marketing da Busscar Ônibus S/A. Os principais fornecedores do equipamento para a Busscar são a Wolpac de São Paulo e a Foca de Caxias do Sul e São Paulo. As duas empresas de ônibus de Joinville, Gidion S/A Transporte e Turismo e Transtusa (Transporte e Turismo Santo Antônio), utilizam o modelo de catraca com quatro braços da empresa Wolpac. A Wolpac afirma atender às exigências técnicas do Conmetro (Conselho Nacional de Metrologia, Normalização e Qualidade Industrial), órgão regulador de ônibus urbanos e carrocerias. Muitas empresas, instituições e órgãos da Prefeitura de Joinville desconhecem essa padronização. Definem como padrão o modelo de catraca que lhes é mais propício e mais favorável.

Segundo o técnico eletrônico Cleber de Souza, 20 anos, responsável pela manutenção dos ônibus da Gidion, empresa de transporte coletivo da zona Sul da cidade, não existe um modelo padrão de catracas eletrônicas. “Utilizamos o modelo Wolpac, com quatro braços nos ônibus grandes e com três braços nos microônibus, que para nós não deixa de ser padrão”, comenta o técnico.

Cleber explica que a empresa resolveu adotar o modelo de catraca para manter a segurança nos coletivos e facilitar a manutenção das máquinas. Diz que os equipamentos adotados possuem uma boa confiabilidade na questão da segurança e manutenção. “Esse é o nosso padrão Wolmax. Na verdade, a empresa que nos forneceu o sistema de bilhetagem automática nos indicou o modelo”, ressalta o funcionário.

Donizeti Hoffmann, 26 anos, técnico eletrônico da Transtusa, empresa de transporte coletivo da zona Norte da cidade, diz que a espessura e largura do dispositivo segue um modelo específico. “Utilizamos o modelo para evitar que pessoas pulem ou passem por baixo das catracas. É uma questão de segurança”, justifica.

De acordo com o gerente de manutenção da Transtusa, Rodrigo Slapnika, 28 anos, há um ano e meio na função, a princípio a empresa não pensa em mudar o modelo de catracas eletrônicas nos ônibus sob a alegação de que a Wolpac é uma das tecnologias mais desenvolvidas. “Vamos continuar mantendo nosso padrão”, afirma.

"Cada órgão gestor de transporte urbano define o tamanho das catracas" ressalta o assessor de imprensa da Busscar. Em Joinville, o órgão gestor de transporte urbano é o IPPUJ (Instituto de Planejamento Urbano de Joinville). Porém, o órgão não faz a padronização do equipamento. O site do IPPUJ (www.ippuj.sc.gov.br) informa que quem faz a definição dos modelos das frotas de ônibus é o GGT (Grupo de Gestão do Transporte). O grupo se reúne semanalmente na sede da fundação IPPUJ e discute assuntos relacionados ao transporte coletivo. Vladimir, funcionário do IPPUJ, recomenda entrar em contato com a Passebuss para verificar como é feita esta padronização.

O site da Wolpac (www.wolpac.com.br) reserva espaço para a apresentação da catraca − modelo Wolmax: "As exigências cada vez mais críticas de maior conforto e higiene para produtos com utilização pública, bem como a obrigação em se atender normas técnicas para produtos embarcados que propiciem segurança para o sistema e para os usuários, fizeram com que a Wolpac desenvolvesse uma nova classe de produtos, a Wolmax". O site também garante que "as dimensões da Wolmax atendem às exigências técnicas do Conmetro e normas técnicas de mecânica e elétrica embarcadas com utilização humana. Isto para que o produto não sofra solução de continuidade em sua aplicação (...)".

No site do Conmetro (http://www.inmetro.gov.br/inmetro/conmetro.asp), a última definição de modelos de catracas data de 1993. Os documentos legais que definem os modelos de carrocerias são "Portaria Inmetro número 1, de 10/04/1989" e "Resolução Conmetro 1, de 26/01/1993". Para fiscalizar essas normas existe o "Inmetro" (Instituto Nacional de Metrologia, Normalização e Qualidade Industrial).

Grau de dificuldade − Nossa equipe visitou dois terminais (Norte e Centro), conversou com usuários e andou de ônibus para conferir o grau de dificuldade na transposição das catracas. E constatou que o espaço existente entre o corredor de estrutura tubular e a catraca é muito pequeno. Mesmo os passageiros magros têm dificuldade para vencer o bloqueio. Caso carregue uma bolsa, uma pasta ou mesmo um pequeno objeto nas mãos, terá que elevá-lo acima da altura dos ombros para ultrapassar o dispositivo. Devido à excessiva altura (mínima e máxima) da catraca, as mulheres de estatura mediana, obesas e grávidas (em início de gestação) sofrem um constrangimento no momento de ultrapassar o bloqueio.

A assessora de recursos humanos da Gidion, Francine Guntert, sustenta que as gestantes e os obesos pagam a passagem e somente giram a catraca, descendo pela porta da frente. “Os motoristas sabem que este é o procedimento correto para justamente não prejudicar o bebê e para que a pessoa não fique em uma situação constrangedora”, comenta.

O gerente de manutenção da Transtusa diz que a grávida pode pagar a passagem e descer pela porta da frente sem nenhum problema. “É uma questão de bom senso”, assegura. Também afirma que a lei estadual número 1153, de 2001, trata do assunto não somente no transporte coletivo, como também nos cinemas, teatros e demais locais públicos. Segundo os representantes da Transtusa, os coletivos possuem bancos específicos para obesos, gestantes e deficientes físicos. “Temos os adesivos dentro dos ônibus informando que, conforme essa a lei determinado banco é específico para obesos, gestantes, idosos e deficientes físicos”, explica Rodrigo.

Segundo Sidneya Foss, funcionária da Passebus (Sistema de Transporte e Bilhetagem Automática de Joinville), a empresa está promovendo campanhas nas emissoras de rádios para convencer os usuários do transporte coletivo a dar prioridade aos idosos, gestantes e deficientes físicos. Sidneya ressalta ainda que Joinville é tida como uma cidade modelo em relação ao sistema de bilhetagem automática sendo também considerada pioneira no estado em relação à iniciativa. “Pessoas de praticamente todos os países vêm conhecer nosso sistema de transporte coletivo. Têm cidades que querem implantar o sistema e seguem Joinville como modelo”, afirma.

Diante do quadro, ou os usuários de ônibus não conhecem as leis que defendem seus direitos, para poder cobrá-los, ou as empresas de ônibus não estão respeitando esses direitos. Nenhuma das empresas envolvidas com o transporte urbano de Joinville assume que a responsabilidade de padronização das catracas é sua. Quem acaba penalizado, como sempre, é a população.

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