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Matéria 0324, publicada em 29/09/2003.


:Ana Paula Bueno

De dona de casa a tradutora e escritora de livros

Por Ana Paula Bueno e Giovanna Hagedorn Pereira

Quando entramos, nosso olhar se deparou num objeto preto em cima da cadeira. Era um gato. Na sala, lareira, ar condicionado e uma coleção de vinil: boa música em dias de frio ou de calor. No escritório, livros antigos e um computador. Estamos na casa de Maria Thereza Böbel. Casou-se aos dezoito anos, é mãe de três filhos e avó de Mariana. Começou pesquisando e traduzindo, do alemão gótico para o português, artigos sobre o Batalhão de Infantaria de Joinville do Kolonie Zeitung. O trabalho era voluntário, mas, dois meses depois foi contratada pela Prefeitura e aprendeu com a Profa. Elly Herkennhoff o básico, que ampliou e melhorou. Dedicou dezoito anos de sua vida na tradução de livros e documentos no Arquivo Histórico e vai ser aposentada por invalidez. Autora do livro “Joinville - Os Pioneiros, Documento e História”, de junho de 2001. Lança o segundo volume em agosto deste ano, sobre a chegada dos imigrantes europeus ao Brasil.

Primeira Pauta - Quando você lançou o livro “Joinville – Os Pioneiros, Documento e História”, em 2001, garantiu que tinha material para mais dois novos volumes. Quando sai o segundo livro?

Maria Thereza Böbel - Está para ser lançado em agosto deste ano. O material já está pronto e sendo trabalhado na Univille. Neste livro, tenho cinqüenta anos de notícias dos jornais de imigração. Nos dezoito anos em que trabalhei no Arquivo Histórico juntei documentos que traduzia, sem pretensão de escrever um livro. Mas um dia eu disse: - “vou publicar”. Achei que tinha material suficiente que justificasse uma publicação.

PP - Como foi a trajetória até o primeiro livro ser publicado?

Maria - A historiadora Raquel S. Thiago viu o material, organizou os textos e mandou para o Baltazar Buschle, que o apresentou a reitora da Univille, com a recomendação de publicá-lo. A minha intenção ao fazer o livro era para que, cada vez que alguém precisasse pesquisar sobre a história de Joinville, encontrasse tudo num único livro. Eu sou conhecida como rato de biblioteca. Um dia resolvi armazenar tudo num livro, os 150 anos de história de Joinville. Juntei o que tinha sobre imigração e traduzi do alemão gótico para ninguém mais me encher o saco (risos).

PP - O começo...

Maria - Tudo começou com as listas de imigrantes europeus que chegaram ao Brasil. Coletei em jornais, registros de óbito, material de igreja. As listas são só números e nomes. Eu achei que deveria rechear, dar vida e juntei material referente às imigrações em jornais alemães e no Kolonie Zeitung. Fiz uma seleção do que interessava para o nosso arquivo. Os jornais de lá traziam notícias a respeito da saída dos imigrantes, e os de cá, da chegada.Havia diários, cartas, reclamações sobre as condições da viagem. Consegui juntar e transformar na história de cada viagem e não ficar somente naquela lista de nomes frios. Copiei tudo a mão, pois não tinha computador disponível no Arquivo. Fazia tradução a lápis e borracha. Se você quer ver como se fazia tradução há cem anos, devia ir lá na minha sala. É escreve, apaga, escreve, apaga. Disputava com minha colega de trabalho um único dicionário. Computador eu não tinha. É um computador na secretaria, um na sala de restauração.Uma tradução que eu podia entregar em uma semana, levava uns dois meses escrevendo. Eu acabava trazendo trabalho para casa, porque aqui tenho computador, então eu copiava tudo e traduzia do alemão gótico para o português.

PP - O que contam seus livros?

Maria - Os livros contam a vida das pessoas. Encontrei relatos de meus antepassados, que vieram no terceiro navio, em 1851. O primeiro livro vai até o ano de 1866, o segundo (que será lançado este ano), de 1867 a 1881 e o terceiro, do qual já tenho o conteúdo, de 1881 a 1902. O foco da minha pesquisa era material que nunca foi publicado em português, para atender as pessoas que não sabem alemão. Eu não interpreto, eu traduzo. Não sei as teorias de história, a parte científica, as linhas de pensamento...

PP - E o que mais?

Maria - Bem, texto meu tem pouquíssimo no livro. Mesmo porque não quero entrar em confronto com os historiadores. Eu não tenho formação acadêmica, não tenho nem o segundo grau, sou autodidata. Só leio gótico, não escrevo. Tenho diploma universitário do alemão comum. É aquele diploma que todo estrangeiro tem de prestar se quiser freqüentar uma universidade alemã. Aprendi a lidar com a história de Joinville no Arquivo Histórico porque sou apaixonada por história. O livro serve para ajudar nas pesquisas de sociologia, religião, a vida da mulher de antigamente, o trabalho.

PP - Você esteve doente. Quer falar sobre isso?

Maria - Claro. Não é segredo. Tive câncer. Concluímos que a intoxicação ocorreu por causa do veneno usado no Arquivo Histórico. Eu estava com dor de barriga há três meses. Fui fazer exames e descobri que estava com câncer de colo de intestino. Quando busquei o resultado da biópsia, o espanto: - “Meu Deus, estou com câncer!” Cheguei em casa e a primeira coisa que fiz foi me enfiar na cama e dormir (tomei um remédio faixa preta). Fui a primeira a botar a cabeça no lugar. Pensei: São três meses de dor de barriga, não é tão grande ainda. Mal sabia eu. Acalmei todo mundo, tirei os prós e os contras, fui bem fria. Um cirurgião, amigo meu, falou que 99% é operável. Então, eu disse: - “Vai preparando a sua faquinha, quem vai me operar é tu mesmo!” (risos).

PP - Você está muito bem, sempre sorrindo. Como consegue?

Maria - Eu sempre procuro arrumar humor em tudo. O importante é você rir de você mesmo. Eu sou o espelho da casa, na hora que eu paro, pára tudo. Então, eu não posso me dar ao luxo de ficar de cama. Eu me obrigo a levantar, porque senão as coisas não funcionam, e eu também fico nervosa. Fiz três cirurgias. Descobri o câncer no início de outubro de 2000, e operei dia 26 do mesmo mês. E em dezembro comecei a quimioterapia (tratamento a base de produtos químicos). No mês de fevereiro de 2001, fiz colostomia, para proteger a cirurgia. É uma coisa muito chata, custa para o psicológico, é terrível. De toda a doença, esse lado foi o pior. Isso foi fechado em 2001. Aí, retomei a quimioterapia até junho, uma semana antes do lançamento do primeiro livro. Estava tudo bem. Passei o resto do ano afastada do trabalho por conta do tratamento de saúde. Voltei a trabalhar em janeiro de 2002 com muita dificuldade. Os efeitos da quimioterapia eram fortes e demoram a passar, ficava muito cansada.

PP - Mas continuava trabalhando?

Maria - Sim, até que em julho de 2002 meu exame de sangue começou a dar alto. Isso era um sinal de alerta. Me viraram do avesso. E foram constatados dois nódulos no fígado, metástases hepáticas. Mas não dava para tratar em Joinville, tinha que ir a São Paulo, no Hospital Osvaldo Cruz. Minha mãe foi comigo. Dois anos depois da primeira cirurgia do intestino, operei o fígado. Em quinze dias voltei e me recuperei bem rápido. Em dezembro (2002) comecei a quimioterapia novamente, mas essa é bem mais agressiva, bem mais sofrida. Me fez perder cabelo, deu enjôo e passava 24 horas acordada, depois das sessões. Ainda estou fazendo e na semana que vem termina -mais ou menos dia 20 (A entrevista foi feita em maio). Antes, não dá para programar a vida. Eu nunca sei como vou estar.

PP - Então, o pior já passou!

Maria - Calma, tem mais. Eu estava com o catéter de longa permanência, que é mais prático na hora de fazer as sessões de quimioterapia. Pois bem, em fevereiro deste ano, fui internada com febre muito alta porque o cateter inflamou. Bati um raio X, apareceu uma pneumonia. E agora, estou com tuberculose. Não acabou (risos). Tive um aumento do volume cardíaco e o tratamento mudou meu paladar. Tive que aprender a comer de novo, eu não sabia mais do que gostava. Não posso ver tomate, não como mais salada crua! Eu sempre fui uma formiga por doce e continuo sendo. O fígado pede açúcar, precisa, para se regenerar. Perdi um pouco da audição, um pouco de memória, os óculos já não servem mais. E entrei na menopausa! (risos). É preciso tirar o lado bom da coisa. É preciso aprender, não se pode ficar choramingando pelos cantos. Quanto mais alto o astral, melhor. Eu converso com um pessoal na internet, sobre genealogia (estudo da origem das famílias), e comentei com eles o que se passava comigo. Recebi apoio e sugestões, todos torcendo por mim. Me ajudou muito.

PP - E o Arquivo Histórico, por que fechou?

Maria - Está fechado porque, em setembro de 2002 as moças que trabalham lá passaram mal. O acervo fica na sala de cima, a central de ar estava queimada há muito tempo e não tem servente para fazer a limpeza no local. É um calor terrível lá em cima, tem muito pó. Sem ventilação, as meninas passaram mal e todas apresentaram os mesmos sintomas, como dor de cabeça e vômito. Foram parar no ambulatório da prefeitura e foi constatado intoxicação. Nessa mesma época aconteceu aquele problema no meu exame de sangue, embora eu estivesse afastada porque não estava boa. Foi ai que relacionei a doença ao que estava acontecendo no Arquivo. Com esse fato da intoxicação, surgiu a história de ter veneno lá dentro. Aí meu marido falou: no arquivo tem veneno (BHC). A Vigilância Sanitária lacrou o Arquivo. O laudo do livro mandado para São Paulo constatou que o local está contaminado por BHC e DDT. E os dois são cancerígenos. O médico falou que meu câncer tinha pelo menos quinze anos e eu trabalhei dezoito no Arquivo. O BHC era passado até 1985, para evitar cupim, quando o Arquivo funcionava junto a Biblioteca Pública. Por ordem do antigo diretor, senhor Schneider, um funcionário passava o veneno depois que íamos embora, mas não usava máscara. No outro dia, reclamava de enjôo. O diretor não queria que os livros fossem inutilizados pelos cupins e não tinha idéia do mal que estava fazendo.

PP - Como foi feita a mudança para o prédio novo do Arquivo Histórico?

Maria - Em fevereiro de 1986 nós fechamos o Arquivo para listar os materiais para a mudança. Livros que há anos não eram retirados das estantes foram manuseados durante a listagem. Havia pouca ventilação (somente uma porta, e as janelas eram no alto). Os livros estavam empilhados e inibiam a passagem do vento pelas janelas. Formou-se uma nuvem de poeira, com o pó, o veneno e os fungos sobre nossas cabeças. Eu era a diretora do Arquivo na época e chamei a segurança da prefeitura e eles retiraram o tambor que continha o veneno. O funcionário achava que tirando aquilo, eliminava o problema, mas o veneno estava dentro dos livros. E esse material foi todo para o Arquivo novo, arranjado nas estantes. Nunca houve tempo para limpar os livros.

PP - Você tem alguma mágoa do que aconteceu?

Maria - Aquilo que se conservou por tantos anos agora está se degradando. Quando eu penso, dá uma dor aqui dentro, porque a minha paixão é aquele arquivo. Trouxe uma revolta pelo descaso do poder público. Não foi por falta de aviso. Lá no fundo, nós sempre sabíamos que tinha veneno lá dentro e cada vez que um diretor da Fundação Cultural assumia, nós falávamos sobre o veneno. Eles achavam que não era possível... Foi mandado um livro ao laboratório do Instituto Adolfo Lutz, em São Paulo, para ser analisado. O laudo comprovou que o Arquivo Histórico está contaminado por BHC e DDT (venenos usados contra cupim, barata, traça), altamente cancerígenos. Em dezesseis anos nunca haviam sido limpos os dutos do ar condicionado. Aquele senhor que jogava veneno ainda está lá. Soube que no ano passado operou o pulmão. Mas ele também fumava... Tem uma toxicóloga de Florianópolis que está estudando o caso, pedindo uma bateria de exames e vai examinar todas as pessoas que trabalham lá. Esta médica me alertou sobre o tamanho do meu fígado, assim como o médico que me operou em São Paulo. DDT provoca crescimento do fígado...

PP - Planos para o futuro?

Maria - Montei um belo escritório em casa. Minha produção cultural não vai parar. Eu não dependo do Arquivo para continuar produzindo, mas a minha vida profissional como tal, acabou. Tive todo esse cuidado para montar algo para minha velhice. Mas eu não pensei que ia chegar tão depressa, planejava trabalhar mais uns dez anos até me aposentar... Tenho cinqüenta e cinco anos. Agora estou traduzindo um livro que fala da história da Alemanha, uma sátira. Todo mundo tem duas histórias: a dos dias e a das noites. O autor conta a história das noites. O que acontece nas camas (risos). Estou na metade do livro e o pessoal da lista na Internet está cobrando a publicação. Mas preciso consultar a editora, sobre os direitos autorais. Eu tenho prazer no ato de escrever, fazia isso no meu trabalho.

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