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Matéria 0198, publicada em 22/08/2003.


Dia da Memória da Escravidão é analisado por professor

Márcio de Souza, professor e vereador do PT em Florianópolis

Determinada a não permitir o esquecimento dos processos de escravidão, imposta aos povos ao longo da História, a Organização das Nações Unidas decidiu pela afirmação universal desta data.

No Brasil, especialmente, a memória do trabalho forçado, de índios e africanos, e o translado dos africanos pelo Atlântico foram objeto de ocultação ou seu entendimento, por longos anos, foi prejudicado pelo Estado e por setores da elite civil.

Nacionalmente, a escravidão de parcela significativa da nossa população sofreu desprezo e, por esta equação, os elementos derivados deste período, como por exemplo o racismo, não sofriam qualquer espécie de restrição, dado a sua naturalização e silêncio.

Não custa lembrar que a “abolição” do dia 13 de maio de 1888 não eliminou seus pilares filosóficos e ideológicos, na forma de perceber e se relacionar com os africanos e seus descendentes.

O Capitalismo, sucessor da escravidão, enquanto modo de produção, serviu-se e serve-se, em larga escala, dos elementos estruturantes dos tempos dos trabalhos forçados e das torturas físicas e morais.

Grande parte dos brasileiros negros e não-negros têm enormes dificuldades em compreender o significado da escravidão para as suas vidas. Afinal, enorme parte das representações, documentos, símbolos e materiais daquele momento histórico foram estrategicamente destruídos, para que pensássemos que seus efeitos foram de pouca repercussão na vida dos brasileiros.

Assim, ter a memória da escravidão, de forma constante, representa uma ponte à obscenidade do nosso passado. Permite dar surgimento a uma outra compreensão do presente, capaz de incorporar novas e justas visões e procedimentos para sustentar uma outra regra de relações, ou seja, uma nova possibilidade moral influenciada por uma ética inclusivista.

Desta forma, a ONU, mundialmente, se esforça para edificar, nesta data, um espaço museulizado e dinâmico, disposto a ajudar os seres humanos a forjar sua indignação frente às escravidões. Assim, talvez, criaremos condições para impedir o seu prosseguimento e/ou repetição.

Por fim, é preciso observar que a escravidão infelicitou os africanos e seus descendentes, ao mesmo tempo que, também, comprometeu quem dela se serviu, pois vícios se nutrem naqueles que optam pela exploração do outro. É a sua própria negação enquanto projeto de humanidade.

Em larga escala, compromete a própria possibilidade de construção de uma Nação, pois é impossível tê-la só com uma metade das pessoas que nela vivem.

Saravá!

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